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Nada dito aqui deve ser levado a sério. Deve ser levado ao forno por 30min. Não se sinta culpado ao não servir, eu também não sirvo pra nada. Blog melhor visualizado em resolução 1680x1050 pixels, em monitor SAMSUNG de 22 polegadas e sob efeito de psicotrópicos. O blog é ruim e os posts mais novos não vão pro topo. O limite de caracteres nessa mensagem é 500, então sobrou espaço: vendo monza 83.

2 de maio de 2011

Poesia II: Poesia genérica


Morar em república de estudantes é trabalhoso, consome muito tempo. Nessa agitação da vida moderna não-assalariada, quem é que tem tempo de escrever poesia? Ninguém, claro. Ninguém tem tempo de escrever poesia. Pensando nisso, os membros da República da Sagrada Castidade adotaramuma só obra em verso para todos os fins literários não-prosa.

SUBSTANTIVO MASCULINO
Eu sinto por você
um SUBSTANTIVO MASCULINO profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de SUBSTANTIVO MASCULINO do mundo
Eu simplesmente
FRASE DE EFEITO

Alguns exemplos:

Ódio
Eu sinto por você
um ódio profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de ódio do mundo
Eu simplesmente
te odeio

Algo mais apropriado para a semana de dia dos namorados?

Amor
Eu sinto por você
um amor profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de amor do mundo
Eu simplesmente
te amo de qualquer modo

Alguém postou mais um status naquela rede social com uma passagem altamente pessoal, desinteressante, trivial e/ou dedicada a alguém que não fede nem cheira?

Desdém
Eu sinto por você
um desdém profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de desdém do mundo
Eu simplesmente
não me importo

Agora, sim, você pode ser um ignorante literário que leva uma vida de poeta do século XXI. Qualquer século, na verdade - um cara que nunca passou fome e reclama muito, e tem sempre algo que acha que é de fundamento a dizer.

16 de abril de 2011

A República

Cheguei ao Rio de Janeiro para ficar um bom tempo e vim morar em uma república de estudantes, a República da Sagrada Castidade ('ReSaCa'). Sem conhecer nenhum dos moradores antes de chegar, me espantei com o modo de vida mas não tive problemas em me adequar a ele. Não temos copos, mas temos um Nintendo 64 e Mario Kart, o que é o suficiente para uma vida feliz, aparentemente.

A questão central e mais difícil de ser compreendida sobre o lugar é: como é que isso funciona? Em alguns pontos, parece uma comuna socialista ou acampamento de indigentes, em outros, só um acampamento de indigentes. Explico: tomei a liberdade de fazer alguns cálculos e o número de pessoas dormindo no apartamento com regularidade é, de fato, maior que o de camas e colchões infláveis. Alguém deve estar dormindo escondido no banheiro.

Sobre o comunismo latente: o regime de partilha dos bens também é diferente de tudo que já tinha visto em vida; não se sabe quem é o responsável pela compra de itens como papel higiênico, shampoo, pasta de dente, sabonete e outros, apesar de serem compartilhados por todos (menos por mim, que escondo essas coisas para uso pessoal na gaveta de cuecas - sou um traidor dos costumes locais). Em parte pela falta de responsabilidade objetiva, alguns períodos de falta são comuns e todos tratam a questão como uma prova de resistência: quem não aguentar mais lavar o cabelo com sabonete que compre o shampoo. E alguém sempre compra.

Em tempo: foi aqui que conheci o termo 'shampoo homeopático'. É aquele em que o banhista enche o pote de shampoo já completamente vazio com água, chacoalha e aproveita o que surgir de espuma. Reza a lenda que o processo pode ser repetido por até cem vezes, com admirável eficácia no tratamento de pontas duplas, raízes olheosas e outros termos de propaganda do Seda ceramidas.

No mais, tudo vai muito bem, exceto pelos poucos reveses: o banheiro interditado para reformas pelo menos uma vez por mês, as lâmpadas que queimam a cada quinze dias, a infiltração na parede tão profunda e antiga que tem nome de batismo, o ventilador de teto que cai enquanto desligado sem razão aparente e o corpo humano semi-decomposto que encontramos dentro do armário da pia da cozinha.

Somos felizes competindo em campeonatos de Mario Kart na madrugada, discutindo política e Direito, dormindo espalhados, bebendo tudo em uma xícara com a alça quebrada, no escuro, sem banheiro confiável e com o risco de colapso da estrutura física em geral. E somos mesmo, é tão divertido morar com pessoas estranhas que estou pensando em domesticar algumas.

8 de abril de 2011

Otimismo

Procuro apartamento. Tarefa cansativa, preciso ligar para muita gente, anotar muitos dados, me preocupar em comparar os lugares que já visitei e definir preferências.


Descubro que a grande maioria dos apartamentos que atendem aos meus critérios de interesse não possuem área de serviço própria para lavar roupas ou mesmo espaço propício para estendê-las ao sol. Relatando os resultados da busca para a namorada, que deve vir morar comigo no dito apartamento, digo que provavelmente estaremos destinados a ser clientes de lavanderias por um bom tempo.

E ela, com um tipo raro de otimismo mesmo entre as pessoas que acham que o copo está meio cheio e enchendo aos poucos:
- Pelo menos vamos economizar no Omo!

26 de janeiro de 2011

De Baio a Lênin

Overdose de filhote de gato. Funciona assim: viajei para a casa dos primos e lá o Baio, gato filhote, caçou a fiação dos notebooks, baratas e os pés desatentos das pessoas. Insistia em subir na mesa quando jogávamos um jogo com centenas de pecinhas cuja delicada posição no tabuleiro é importante para a partida. Também gostou muito de guardar dentro do meu tênis uma das baratas que caçou, enquanto eu dormia só de meias no sofá. Parecia estar sob efeito de erva de gato o tempo todo. Bem, não todo, exatamente: quando montaram o narguilé e o pessoal baforou na cara dele algumas vinte vezes ele ficou mole e dormiu. É o mais parecido que se descobriu com um botão de desligar.

Aí viajo dez horas de ônibus pra encontrar outro gato, Lênin, acho que um pouco mais velho (um pouco maior, pelo menos) que o Baio. Mas tão hiperativo quanto. Atacou meus pés, subiu em cima de tudo que tentei ler e miou freneticamente até eu ir ver o que ele queria: estava comendo um objeto grudento não-identificado. Tirei dele e joguei fora, espero não ser nada valioso, e o miaredo começou (de novo) instantaneamente, com o gato parado do lado de um pote que deduzi ser o recipiente d'água. Enchi o tal pote e o gato prontamente enfiou o rosto na água, tirando de volta em seguida. Acho que tomou um susto, pois fez aquele barulho que os gatos fazem quando se intimam com algum outro bicho. Chacoalhou a cabeça e bebeu água normalmente. Entrou na minha mala e saiu 10 segundos depois, mas tenho a impressão de que vai estar faltando alguma coisa lá dentro quando eu for checar.

Vou sair agora e ver se consigo comprar um narguilé pra desligar esse também.

5 de janeiro de 2011

Trauma II

Se algum dia for responsável pela segurança de um local vou tentar o seguinte experimento: passar a noite no lugar. Com minha inseparável espada katana feita de palitos de picolé afiados por monges cegos da Linha Caturrita (porque Tibete já saiu de moda nos anos noventa) para minha proteção, é claro. Passarei uma noite no local para avaliar o ambiente, de forma a garantir que qualquer pessoa lá presa contra sua vontade por toda uma noite desfrute de condições mínimas de sobrevivência e conforto. Talvez esconda comida, água e bom material de leitura; mas dependendo do orçamento, posso deixar uma arma carregada com uma única bala.

Tomei essa resolução devido à experiência pela qual passei há algumas semanas. Semanas, sim, o relato está atrasado, tamanho o meu trauma, que só não é menor que minha vontade de viver ou meu e-penis por ter um número de ICQ de só cinco dígitos. E é essa vontade de viver, aliada ao já mencionado pênis virtual, que me leva a relatar aqui os dolorosos fatos ocorridos numa noite de verão.

Eis que saindo da universidade tarde da noite, trinta minutos antes de ser fechado o prédio, executo o ritual diário de último-a-sair: desligo os computadores, a cafeteira, fecho as janelas, alimento os refugiados de Botswana que foram mandados para o laboratório por engano no lugar de equipamento tecnológico por erro do Ministério Educação, desligo as luzes e chaveio a porta. Mas, pobre de mim, a porta que liga o prédio anexo, onde estou, ao principal, onde fica a saída, está trancada.

Ligo para a pessoa encarregada de chavear o prédio, aviso-lhe que estou trancado e que por favor venha abrir a porta, tenho que pegar o último ônibus e se eu perder esse trem, que sai agora as onze horas, só amanhã de manhã. A pessoa afirma que não tem a chave, vai entrar em contato com a Vigilância para que venham me destrancar, e tenta tranquilizar:

- Não se preocupe, não vou te chavear aqui dentro.

Passados alguns minutos, ligo novamente.

- Não atenderam lá na Vigilância, vou ficar tentando.

Tento eu mesmo ligar para a Vigilância. Nada. Subo as escadas e bato nas portas dos outros laboratórios, na esperança de que outro nerd sem vida tenha ficado até tão tarde, e que tenha a chave da dita porta. Bato na primeira porta: nada. Bato na segunda porta: nada. Bato na terceira porta: nada. Mas dispara o alarme.

O alarme do laboratório em um volume ensurdecedor toca num tom estridente e como um trem de passageiros na China: superlotado e comunista, ocupando todos os lugares de forma igualitária. Não há refúgio. Não há escapatória. Tento ligar novamente para a Vigilância, pensando que é melhor avisar que fui eu quem disparou o alarme, e não um ladrão ou o Fantasma do Zaguinho - o aluno que, nos anos setenta, morreu no começo do semestre e ainda assim foi aprovado em Cálculo e cujo espírito assombra os corredores da faculdade e pratica traquinagens dignas de vilão de filme pré-adolescente.

Veja bem, mesmo com o alarme (de volume tão alto que deve ter causado problemas nos equipamentos da Estação Espacial Internacional) e telefonando para os encarregados da segurança, ninguém apareceu. Suponho que um ladrão não seja tão cortês a ponto de telefonar para as forças vigilantes para reportar o furto em andamento, mas na minha universidade, caso ele o faça, mesmo assim não será pego.

Enquanto enfiava objetos avulsos nos ouvidos na tentativa de salvar o que restava de meu sistema auditivo, tive tempo de, pela porta de vidro, ver a pessoa que me prometeu não me deixar preso sair com os colegas de trabalho e, de fato, me deixar preso. Tive que esperar duas horas até o alarme morrer - e infelizmente morreram também neste período os refugiados, por exagero na ingestão de ração para gato. Erro meu, que sempre fui ruim com essas medições a olho nu, mas infelizmente no laboratório não há balança de precisão. Ironicamente, da última vez que encomendamos uma, recebemos os refugiados de Botswana.

Sem alternativa, retornei ao laboratório onde passei uma noite miserável de fome, ansiedade, terrores noturnos, suores frios e baixa conectividade na rede externa. E assim, para que ninguém tenha que passar pelo que passei, tomei a já mencionada decisão. Se eu tivesse comida, água e um bom material de leitura talvez não tivesse sofrido tanto; mas o que muito me fez falta foi a tal arma com a bala de misercórdia.

30 de dezembro de 2010

Stress II

Conversa sobre assunto qualquer, muito provavelmente sobre a qualidade da música ou o volume do rádio, durante uma viagem de carro. De repente, a mulher interrompe o assunto:

- Cuidado com o tucano.
E o homem, o motorista, confuso:
- O que?
- O tucano, ali em frente, cuidado!
- Que tucano? Onde? - abaixando a cabeça e cerrando os olhos, olhando para todos os lados.
- O tucano! Vai passar! Não, cuidado, o tucano!

E alguns minutos e muita discussão depois, o motorista descobre que a mulher quis dizer 'pardal', como são popularmente conhecidos os radares detectores de velocidade nas estradas do Rio Grande do Sul. Até hoje, quando se conta a história, ela diz:

- Parem de rir de mim, eu só errei o nome do pássaro.

E deixou de evitar uma multa.

29 de dezembro de 2010

Stress

- Alô?

- Alô, Vini! Tu viu meu celular?
- O que?
- Viu meu celular em algum lugar!? Tá por aí na tua casa!?
- O que? Não. Tá na rodoviária?
- Sim, acabei de chegar, o ônibus tá saindo, perdi meu celular e não acho, lá em casa não tá! Vê se eu não deixei aí!
- Não é do teu celular que tu tá me ligando?
- ...
- ...
- ...
- Ahn. É mesmo.

Aconteceu de verdade. Nome da interlocutora subtraído para manter o anonimato da Luíza.

13 de outubro de 2010

Palavras cruzadas

Depois de descobrir o que é sudoku jogando no celular durante uma cerimônia de formatura e decidir que vou poupar os poucos níveis que falta completar pra jogar durante a próxima, pois não aguento mais colação de grau, resolvi comprar uma revista dessas tipo palavras cruzadas, coquetel, tiozão do sofá.

Comprei uma muito louca em que tem que ir seguindo as informações pra formar um desenho pintando quadradinhos. Calcula daqui, calcula de lá, descobre quais bloquinhos tem que pintar e quais não. Pinta bloquinho sim, pinta bloquinho não. Fiz o primeiro, fácil, pra aprender: um carrinho. Fiz outro, um pouco mais difícil, um rosto. Fiz outro, ainda mais difícil, uma bruxa. Por fim, fiz um, bem maior e mais difícil, outro rosto. E era pra ser o Robert De Niro. Quer dizer, fiz não, quase fiz. Deixei por acabar.

Agora, de madrugada, fui pegar a revista pra dar um fim no De Niro e olhando ela assim, de cima pra baixo, defini a hipótese que vou carregar por vida toda: qualquer pessoa nariguda de ponta-cabeça parece um pinto. No caso, pinto quadradinhos.

23 de setembro de 2010

Edmundo

Conheci um cara chamado Edmundo, Edmundo Samoa. Um conquistador.

É mais velho do que eu, mas dizem que carrega a fama de passa-a-vara há muito tempo. Ele mesmo diz que é assim desde outros tempos:
- Sou assim já de outros tempos, peguei mulher na época do ele-pê.

Suas técnicas de sedução são eficientes e especializadas por classe social, grupo econômico, faixa etária e risco de encarceramento. Nem toda conquista de Edmundo é gloriosa; sei, de fato, que algumas foram gloriosas - ou teriam sido - na década de 80. Algumas são até controversas: Edmundo às vezes brinca que "as pessoas diziam que ela tinha idade para ser minha veterinária", rindo. E não se importa. Diz que uma conquista é uma conquista:
- Uma conquista é uma conquista. Até avó amigo tá valendo!

Um dia desses um gurizote o chamou de tio. O senhor Samoa, já não sendo mais um rapazinho, há muito tempo adapta e adequa aos novos tempos as práticas de antigamente. Nos últimos tempos, no entanto, enfrentou dificuldades. Cabisbaixo, confiou aos mais íntimos (pelo menos a mim) que era o seu fim:
- É, compadre. Acho que é o meu fim.

E era mesmo. Foi atropelado dois dias depois dessa conversa e nunca mais se recuperou da morte instantânea.

Terror

Feche os olhos e imagine uma casa solitária em uma rua esquecida em que ninguém procura por nada há muito tempo. Se você ainda está lendo é porque ou nem chegou a fechar os olhos ou abriu antes de eu mandar; de qualquer forma, não posso mais confiar em você e não quero mais te contar história de terror nenhuma.

Ah, sim, estou indo até tua casa para te matar a marteladas.

16 de agosto de 2010

Conforto

Odeio ser incomodado e adoro conforto. E meu conforto é maior quando incomodo os outros. Que outros? Todos os outros. Qualquer outros. E como todo delinqüente juvenil (juvenil, sim, a juventude é um estado de espírito!) tenho preferência por figuras de autoridade quando incomodo.

Depois de comprar um computador portável e muito pesado para ser portátil decidi que usá-lo enquanto deitado na cama, com ele sobre o colo, era algo desconfortável. Precisava de uma daquelas mesinhas, tipo de café na cama, com pernas retráteis ou dobráveis. Depois de uma breve pesquisa de mercado e de extorquir alguns informantes, tracei o plano para me apoderar de uma. Um plano mesquinho, vil e traiçoeiro, mas eu estava determinado. Assim, naquele dia, fui até a igreja para me confessar por antecedência.

Esperando na fila da confissão, convenci as senhoras que lá estavam que sim, abrir emails de estranhos era pecado. Reencaminhar para toda a lista de contatos, então, pecado mortal. E que com certeza adicionaram um novo círculo ao Inferno para quem comete esses pecados virtuais. Chegou a minha vez de ser atendido e adentrei o confessionário.

- Salve, filho - disse o padre.
- Padre, vim me confessar por um crime terrível.
- Que crime?

Não respondi. Já tinha saído correndo do confessionário, da igreja, da cidade. E levei comigo o banquinho de se ajoelhar do padre, que fiz cair com um sonoro tum no chão gelado da igreja (e era um inverno malvado) quando o arranquei de sobre os joelhos dele. O banquinho de se ajoelhar do padre, uma mesa perfeita para usar notebook na cama (e, suspeito, além de tudo, abençoado) já era meu. Poderia ter levado qualquer um dos que estavam espalhados pela igreja, mas me senti mais confortável me confessando em pleno ato. E, claro, prejudicando uma figura de autoridade religiosa. Na semana seguinte roubei a lista de votos comprados de um vereador da cidade vizinha, mas isso é outra história.

23 de julho de 2010

Susto

Já não lembro de quando comecei a passar as noites acordado. As madrugadas inteiras, geralmente lendo algo que não quero deixar pra ler depois, assistindo algo que não quero deixar pra assistir depois ou acabando um trabalho que fui deixando pra acabar depois. Lembro que quando era novo, tinha medo de que ladrões entrassem na casa e me encontrassem acordado - meu entendimento era de que ladrões entrariam em silêncio e sairiam sem levar meu videogame se eu estivesse dormindo.

De qualquer modo, acostumando-se a passar as noites em claro também se acostuma ao silêncio. Pessoas dormindo fazem menos barulho, via de regra - a exceção sendo aqueles que retumbam pelas vias nasais. Na madrugada menos carros passam na rua, menos pessoas fazem obras no prédio em construção, menos cultos evangélicos deturpam a escala dos decibéis, menos vizinhos brigam no andar de cima. E é mais fácil estudar.

Numa noite, só eu acordado passando férias na casa dos meus pais, um barulho terrível acordou a todos (e me fez perder a partida quase ganha de Age of Empires II). Terrível, mesmo, como vizinhos próximos brigando com um culto evangélico que constrói um prédio na rua utilizando partes de carros em movimento. E outras símiles mais apropriadas, talvez.

Naquela noite percebi que meus pais, cachorro, irmão e outros residentes ficaram alertas mais rápido do que eu - que estava acordado. Em menos de um minuto, já tinham lanternas nas mãos, botas nos pés, escondido os ossos (o cachorro) e saído exploração afora. E eu, que já estava desperto quando tudo começou, ainda tentando entender o que estava acontecendo.

No final das contas era só uma máquina de lavar. Ela foi deixada funcionando durante a noite e pulava com o peso da centrifugação, uma forma de protesto por horas extras injustas que as máquinas já adotaram, apesar da falta de avanços no campo da inteligência artificial que levem ao esperado apocalipse robô.

Com a constatação de que as pessoas que dormem ficam mais fácil e rapidamente preparadas para lidarem com o perigo, consegui desenvolver minha inovadora técnica de assaltar apenas residências em que só há pessoas acordadas de madrugada. E esse é o segredo do meu sucesso na carreira criminosa, que me permite financiar meus estudos para a construção de robôs assassinos; além de comprar livros, filmes e jogos para passar as horas em que não estou entrando na sua casa e levando o seu videogame.

Infantil

Tenho um amigo que se recusa a sair de casa. Não sei se é trauma ou mania, não sei a explicação. O cara tem de tudo na vida, é ricasso a ponto de morar em um casarão e ter um empregado que insiste em chamar de "mordomo" - bom, na verdade, ele é órfão, mas e daí? Deveria ter superado há tempos. Mas é um cara muito infantil. Parece que além de não sair de casa também tem medo de palhaço. Só rindo, mesmo.

Enfim, esse amigo um dia decidiu que ia parar de sair de casa. Obviamente, todo mundo que o conhece estranhou. Eu já me acostumei, nem percebo mais, mas a adaptação foi um pouco estranha. Perguntei "De onde você tirou essa idéia?" e ele respondeu "Eu acho que você sabe muito bem, Robin". Enfim, pelo menos ele parou de andar vestido de morcego e de bater nas pessoas por aí. Aquilo era delinquência, infantilidade pura.

17 de junho de 2010

Minha opinião

Sou um bom argumentador, creio. Convenço as pessoas de algumas coisas bem imbecis, às vezes, só para treinar. Como quando convencia as pessoas de que era apto nos esportes (na verdade, eu me convenci de que convencia as pessoas, ninguém nunca caiu nessa).

Também convencia meus professores a me darem boas notas pelo esforço, especialmente quando não havia me esforçado nem um pouco, como naquelas redações que nos obrigavam a escrever, "você é a favor ou contra?". O tema variava pouco de "punição dura por violência no trânsito", "tratamento forçado para viciados em drogas", "preconceito contra o tabagismo" e o eterno "aborto, sim ou não". Sempre fui a favor de não escrever esse tipo de redação. Não convence ninguém.

Hoje, por exemplo, tentei convencer alguns colegas, no ônibus, de que outra passageira estava - e vou dizer sem rodeios - mijada. Observei que as calças dela, nos fundilhos, estavam muito escuras, mais ou menos como fica o jeans molhado.

- Aquela guria tá mijada ou é impressão minha?

Piadas vão e vêm, e não é que até eu me convenço de que pode ser verdade. Ou não? Já estava em dúvida. Estávamos bem no fundo do ônibus e, como havia colegas sentados mais perto da moça (doravante referida como "Ela"), telefonei para um deles.

- Alô.

- Alô, fala cara.

- Alô, cara, tô no mesmo ônibus, a gente tá aqui no fundo, me diz uma coisa, tu consegue ver pra nós se essa guria aí de pé atrás de vocês tá mijada? As calças dela parecem molhadas, sei lá.

Ele não conseguiu ver nada, me disse depois, pois 'Ela' estava de frente para ele.

- Não pode ser, ela não ficaria de pé, sentaria para esconder.

- Talvez seja tática de choque, ficou de pé exatamente pra nos convencer de que não é mijo.

No final das contas 'Ela' passou por nós quando desceu do ônibus, mas dos que conseguiram dar uma boa olhada (eu não era um deles), um achou que eram detalhes da calça ("Mas quem é que compra uma calça que faz parecer que está mijada?!") e o outro estava convencido de que "não sei se era mijo, mas que estava molhada, estava!". Assim, chegamos ao final da história, onde fica clara a necessidade de intervenção espaço-temporal, no sentido contra-natural, do presente para o passado, para que seja revelada a todos a solução deste mistério.

E é por isso que, sim, sou a favor da viagem no tempo.



13 de junho de 2010

Sem graça nenhuma, algumas coisas que aprendi na vida

Tomando um tempo para escrever depois de tomar remédios para o estômago e fôlego (de alguns meses) pra digitar bem rápido, pensei em escrever sobre algumas coisas que aprendi. Depois, esqueci e comecei a escrever de qualquer jeito. Primeiro e mais importante: aprendi que os filósofos aprenderam antes de mim que eu nunca saberia nada. Não posso dizer que já cheguei a conclusão de que nada sei, mas pretendo aprender o suficiente para descobrir isso até 2015 no máximo.

Uma lição de vida que me atingiu em cheio quando eu tinha menos velas no bolo e mais espinhas na testa foi: pode ser teoricamente impossível mentir para si mesmo, mas isso não é problema para quem sempre foi uma pessoa prática. Quando comecei a pensar em garotas, tive a impressão que já era tarde para desfazer a impressão de que tinha largado por último (como realmente havia, com hormônios retardados). Procurando a melhor saída para a dita apertada situação, tomei uma solução drástica com duas colheres de pena de mim mesmo: parei de ir à festas vestido de menina. E de mentir que fazia isso porque fora criado por minha avó gaulesa - uma singela homenagem à Asterix.

Mentiras à parte, é bem verdade que começar a ser rejeitado um pouco mais tarde fundamentou as bases nerds que me sustentam desde então. Talvez se, com um pouco de sorte, ou engenho ou determinação, eu tivesse demorado mais alguns anos para descobrir peitos tivesse me tornado um gênio. Não que eu tenha descoberto algum peito, longe disso. Mas também nada me impediu de tentar.

Hoje, uma lição me parece importante (fora a aulas sobre árvore binária e derivada que faltei). É a seguinte: a vida é improvável, então é melhor se preocupar com coisas pequenas e sem importância frente ao universo enorme até que alguém mais inteligente e infeliz aprenda o sentido da vida. Coisas pequenas como: árvores binárias, derivadas, não se esforçar muito para ser popstar. É pouco, mas é um começo, e posso citar pelo menos três casos em que foi um ótimo meio para um fim relativamente bom, comparando-se à média nacional.

Este é um parágrafo quase pedido de desculpas, mas ainda não sei a quem. Pretendo visitar um padre e me confessar, caso ninguém me contate dizendo "está desculpado". Improvável como a vida é, sou provavelmente um cara normal que, muito excentricamente, não se esforça pra parecer estranho. Até o cabelo comprido é mais acidental que planejado, e olha que o efeito de ser lembrado como "aquele magro cabeludo" não é tão benéfico quanto o "aquele um, não sei descrever". De fato, um dos maiores incetivos pra acabar com o meu ânimo sempre foi voltar ao estado original de mais anônimo com o cabelo curto. Dica de quem está no ramo: apare os galhos.

De qualquer forma, sou geralmente quadrado. Posso dizer com todas as letras que soletro melhor que ninguém porque empato com todo mundo, e quando necessitando juízo mais apurado, tenho pressa. Aprendi que tenho a necessidade intrínseca de estar viciado em algum tipo de atividade lúdica - o que é uma maneira muito mais bonita de dizer que tenho que sempre estar jogando algum videogame. Agora, viciado em doses diárias de algumas horas cada de planejar civilizações (ah, os prazeres da vida moderna que ainda vão me fazer rodar em Cálculo!), pretendo construir a Estátua da Liberdade em Pequim para melhorar a economia - principalmente em minhas cidades Astecas. E pensar que foi jogando Civilization que registrei a marca que ainda vai me deixar rico: Invasões bárbaras multiação, porque honra se lava com sangue.

Falando sério, é brincadeira, ainda não aprendi nada. Então, com sua licença, vou ali tentar aprender alguma coisa - 2015 está logo ali.

1 de junho de 2010

Pedindo pizza

Sexta, noite, é jogatina de tabuleiro lá em casa e estamos contrabandeando whisky feito em destilarias clandestinas na NY de 1921. Alguns capangas já deitaram na sarjeta e seu sangue escorreu pros bueiros com o whisky que os g-men apreenderam no caminhão roubado. A competição é ferrenha e quem lucra mais chora menos.

Antes de acabar essa partida e começar um treinamento para Dungeon Overlord na próxima, em um jogo completamente diferente, decidimos pedir uma pizza. Ser mafioso dá fome.

Como de costume, a decisão dos sabores promete ser uma discussão bem longa. Antes de começar a gastar saliva inutilmente, ainda no espírito gângster, proponho um acordo. Um acordo que eles não podem recusar.

- Ei, vamos fazer o seguinte: liga lá e diz que quer uma pizza gigante igual a última que foi pedida.

Sucesso instantâneo. O nosso bravo arauto telefônico trava contato e quando realmente pede "me manda uma pizza igual a última que tu tens anotada aí" o atendente acha graça. "Que que achou do meu pedido? Curtiu, né?!". Sim, ele tinha curtido.

Em meios às risadas do pessoal sobre o episódio inusitado tirei mais da metade das cartas do monte e coloquei na pilha que constituía minha mão. Não roubo em jogos de tabuleiro. Mas, afinal de contas, aquele era um jogo para gângsters.

30 de abril de 2010

Não importa

Não importa que tipo de dia era, se chuvoso ou ensolarado, se quente ou frio, se bucólico ou heterossexual. Era um dia qualquer. E uma bizarrice aconteceu.

Um jovem casal andava pela rua, não importa a origem ou destino. O que importa é que, como tantos namorados mundo afora, este estava incomodando a namorada, mas incomodando por prazer. Imagine a namorada andando, meio incomodada com o fato de estar se incomodando com as ações do namorado que, ela sabe, são bestas e têm o único objetivo de incomodá-la. Deu pra imaginar?

Não importa exatamente como ele fazia isso, mas coisas que geram o resultado semelhante são: cutucar a namorada, imitar as amigas dela em situação embaraçosa, falar palavrões de modo que outros transeuntes escutem para envergonhá-la ou discursar sobre como as mulheres querem mais é que os homens morram todos (depois de terem aberto o último vidro de pepino e admitido que elas são melhores motoristas). O que importa é que ela estava incomodada o suficiante para verbalizar.

E ela fez isso batendo no braço dele (aquele soco de namorada que não quer admitir que está incomodada) e dizendo: "Seu torto!". Explico: torto é uma gíria local para um bestalhão, boboca, trapalhão ou imbecil. Mas, como veremos, também pode ser considerado um termo bem ofensivo.

O que aconteceu nesse caso específico foi que o namorado imediatamente parou de incomodá-la, ficou em silêncio, profundo e envergonhado. Todos que já passaram ou viram situação semelhante sabem que um namorado incomodativo não se aquieta com um soco feminino no braço, ele simples reclama "Ei, isso doeu!" e continua a fazer o que estava fazendo (incomodá-la).

Então, qual foi o motivo do silêncio pós-soco tão raro? Após alguns passos, ele explicou calmamente:
- Ei, olha só. Quando tu me bateu e gritou "seu torto", bem na hora passou por nós aquele senhor, deficiente físico.

Ela, conhecedora do humor questionável do namorado, não acreditou. Disse "Mentira.", e várias maneiras de xingar o namorado passaram por sua cabeça, mas não importa. Ele se adiantou e disse: "Olha lá atrás , então".

E ela olhou, e viu. E acreditou. Lá estava um senhor, deficiente físico, caminhando com suas dificuldades na direção contrária. Mas olhava pra eles, meio envergonhado, meio raivoso.

Compreensivelmente, ela ficou desolada. Que fora! Mas não importa o quanto ela tenha se sentido mal, o que se seguiu foi pior. Exclamou, em alto e bom tom, aquela interjeição comum: "Ah, não!" (implicitamente significando 'não acredito que fiz essa cagada'). Não importa o quanto tenha se sentido mal porque ela fez essa cagada, e fez pior.

No exato momento em que gritou "Ah, não", ainda meio virada pra trás, adivinha quem passava por eles? Um anão. Você pode não acreditar, mas não importa. Foi assim que aconteceu e é assim que vai entrar para a História.

8 de abril de 2010

Trauma

Participo quase que obrigatoriamente das festividades anuais dos calouros de minha universidade. Isso pois quis o destino que eu morasse bem em cima do bobódromo de minha cidade, onde os coloninhos e patricinhas-wannabe recém-chegados das cidades menores próximas tentam (em vão) se enturmar na cidade grande.

De qualquer forma, participar dessas ocasiões é legal pois o sentimento de "já passei por isso" é estranhamente agradável, quase tão agradável quanto atropelar pessoas durante as aulas práticas na auto-escola. E eu sempre passo pelo menos uma hora lá, na rua, conversando com os colegas e dando risada dos calouros (os populares bixos) pelas palhaçadas que fazem voluntariamente (ou sob efeito do primeiro álcool jamais ingerido).

Mas a bobeira natural do meu ser não respeita as convenções sociais, e portanto tenho que, às vezes, fazer bobagem até no meio de festividades como essas. A mais recente é um belo exemplo.

Explico: parado lá entre amigos e vários desconhecidos destinados a me encontrarem futuramente nos corredores da faculdade, uma guria qualquer, por motivo desconhecido, esbarra em mim. Grito a plenos pulmões, com uma cara de deseperado que deve ter sido a causa dos terremotos no Chile: "NÃO TOCA EM MIM!". Ela se assustou um pouco, mas me afastei rápido o suficiente para evitar problemas. Pelo menos por hora.

Eis que mais tarde uma outra guria, do mesmo grupo (eram todas colegas de curso participando das festividades com meu curso) me cumprimenta. O cumprimento em si foi só um "Oi", mas o que interessa é que me estendeu a mão. Agora, não sei a razão de ter feito o que fiz, juro que não foi planejado, mas olhei para ela com os olhos gélidos de um estivador russo alquebrado pela vida sofrida e disse, matando pelo menos dez porcento de meu caráter honesto no processo: "Não encosto em mulher". Essa ficou mais assustada do que a primeira. Achei justo continuar.

"É sério", eu disse. "Não encosto em mulher. Pode perguntar pra tua colega ali, antes ela esbarrou em mim e eu sem querer gritei com ela". Como de costume, saí do local rapidamente, mas dessa vez não rápido o suficiente para deixar de escutá-la comentando com outra colega: "Viu aquele ali? Diz que não encosta em mulher!".

Alguns segundos depois (que para sempre serão lembrados na história como os últimos momentos de minha já então desguarnecida vergonha na cara) saltam na minha frente as três gurias da história. A primeira, com quem gritei, a segunda, que me estendeu a mão, e a terceira, que não fez nada de importante. Eis que a primeira me estende a mão e diz "Prazer, Fulana".

Fica difícil explicar minha reação, mas fui um ótimo ator. Estendi a mão alguns centímetros, mas a puxei de volta como quem se envergonha do que tinha acabado de tentar fazer. Contorci os músculos da face em expressão de dúvida, creio que seja algo parecido com a cara do capitão do Titanic momentos depois do impacto com o iceberg. O meu iceberg em questão (três gurias) me fitava com uma tripla cara de incredulidade. Mas eu adicionei veracidade à minha interpretação olhando pros lados vergonhosamente, como que procurando alguém que me salvasse de ter que encostá-las.

A do meio (a segunda) disse então: "Viu, eu falei que ele não encostava em mulher!", como se tivesse acabado de descobrir um animal raro. Não mencionei, mas eu estava parado em uma roda de conversa e por puro acaso do destino, ao ouvir estas palavras, colegas meus corroboraram a história acidentalmente "Não encosta nele, não encosta nele". Cheguei a ouvir uma voz máscula exclamar "Não encosta nele que ele é meu", o que me faz evitar andar sozinho nos corredores da faculdade desde então. Essa parte, no entanto, parece ter passado despercebida a elas, e eu não sei o que sucedeu da conversa pois (pela terceira vez) saí do lugar em que estava em disparada. Dessa vez para ir embora, pois já e estava de saída mesmo.

No caminho de casa (curto, por sinal) encontrei um colega desgarrado e narrei a história toda para ele. Combinamos que ele explicaria para elas que fui maltratado por uma serviçal alemã da família, que me fazia comer objetos pontiagudos e programar em assembly. Era trauma de infância, portanto.

Não sei exatamente como o resto da história se desenrola, mas também nem importa. Acho que a informação que coletei já é suficiente para confirmar que as pessoas estão muito mais inclinadas a acreditar em traumas de infância do que o imaginado. Isso até diminui um pouco meu respeito pela humanidade, mas de certa forma me dá esperança de que um dia eu possa contar pra todo mundo mais detalhes sobre meu verdadeiro trauma (ter acidentalmente matado um colega de aula em uma partida de frescobol).

15 de março de 2010

Dificuldade

Chegando em uma cidade grande e sofrendo uma tentativa de assalto:

- Me dá a carteira!
- Carteira? Mas só tem documento aí dentro, cara, não pega minha carteira não.
- Então qualquer dinheiro que tiver, passa aí, rápido!
- Ah, acabei de gastar minha última moeda comprando esse lanche aqui.
- Então passa o lanche pra cá!
- Mas é o meu almoço, eu não sou daqui, acabei de chegar de ônibus, vim visitar minha avó doente, não me deixa sem comer, por favor!
- Mas puta merda ein, pelo menos me dá a corrente aí que tu tem no pescoço.
- Ih, meu, não vai dar não, foi essa minha avó que me deu...

Reza a lenda que o assaltante ainda acabou dando indicações pra chegar no bairro da velhinha, mais algum dinheiro pro ônibus.

15 de janeiro de 2010

Estranhezas

Acordei querendo encrenca.

Acordei querendo encrenca porque a vida é assim, de vez em quando dá aquela vontade. Tenho um amigo que costuma dizer que vontade "dá mais rápido que holandesa em carnaval de rua em Salvador". Suponho que figurativamente, visto que ele nunca conheceu uma holandesa, não conhece Salvador, não pula carnaval e não gosta de sair na rua.

Eu, geralmente um cara tão pacato, tão pacato que chegam a me considerar bobo.

Bobo, assim, não no sentido de que me enganam fácil. Aliás, até enganam, mas é porque eu deixo. Gosto de deixar as pessoas que desgosto me lograrem nas pequenas coisas. Me faz bem. Porque quando eu inevitavelmente me vingo (às vezes a vontade de vingança vem assim, do nada) não me sinto tão mal, é só retaliação, eles me lograram primeiro. O que eu posso fazer? Sou um moralista viciado em vingança.

Mas hoje acordei com o bicho. É hoje! Mal levantei e abri a janela. Tive que esperar bem uns cinco minutos até aparecer alguém em alguma janela visível. Pra esclarecer: moro num desses prédios cujas janelas têm a a distinta vista das paredes do próprio prédio. É dificil explicar qual a pegadinha arquitetônica que permite que um prédio tão chato faça tantas curvas retas.

Nesse tempo que esperei, quase que minha vontade se vai. Afinal, como diz meu já mencionado amigo, vontade "se vai mais rápido que um proto-núcleo de bério 14 decaindo no vácuo", ou algo do tipo. E suponho que literalmente, pois ele é físico - o que explica a falta de vontade em sair pra rua ou pular carnaval. Pena, pois é um ótimo dançarino.

Mas então, com a vontade de encrenca por um fio, aparece numa janela - uns dois andares pra cima - uma senhora, e como eu não tinha nada contra ela, tive que improvisar. Especificamente "contra ela" porque tenho algo contra a maioria dos vizinhos; costumo guardar numa caderneta os fatos e boatos que posso utilizar contra as pessoas. Afora as pessoas que deixo que me logrem, incluo todos os vizinhos, empregados, empregadores, professores e colegas. Vizinhos para estas situações de necessidade de desaforo domésticas em que me encontrava na ocasião. Empregados e empregadores para manter a ilusão de que participo dos jogos de poder que vejo nos filmes de espião envolvendo grandes corporações e, por fim, colegas e professores pois às vezes levo o caderno para ler em aula e acabo adicionando alguém que me enche o saco.

Como não fazia idéia de quem era aquela senhora, decidi partir logo pelas vias do insulto genérico:
- Será que vocês têm que fazer tanto barulho logo cedo, PORRA!?

Ela primeiro ficou indecisa, não sabia se era com ela. Assim que identificou meu olhar de matar gato de susto e fixo naquela veia (artéria?) horrível que tem no pescoço sexagenário, abriu a boca como aquele emoticon de susto e pasma com a total falta de bons costumes de minha parte. Tive que reforçar, pois ela titubeou e eu não gosto muito desses silêncios constrangedores:

- Tô falando sério, porra! Se me acordarem logo cedo assim de novo eu vou quebrar essa merda toda de condomínio!

Acho que é óbvio, mas não custa explicar, que gosto de causar aquele impacto ácido do xingamento ilógico. Por isso insisti no "logo cedo", bem sabendo que era passado da uma hora da tarde. E, como sempre, esperei o esboço de reação indignada para o gran finale: mal ela largou as toalhas que carregava para me apontar e eu fechei a janela subitamente com um sonoro "Bom dia!".

Mais tarde fui lá pedir desculpas para o filho dela, colocando a culpa do surto nos remédios que me causam alucinação.

3 de janeiro de 2010

Super

Sou um herói anônimo. Salvo vidas constamente e só conto a história anos depois, quando as possíveis recompensas já prescreveram.

O último caso de pacificação que perpetrei se deu, como não poderia deixar de ser, utilizando os super poderes de ursinho carinhoso da comédia que me foram concedidos randomicamente. Tipo uma loteria de super-heroísmo onde acertei uma quina.

A cena é a seguinte: dois carros se enroscam no trânsito caótico da cidade mal planejada em que moro. Descem dois rapazes do carro da frente. Descem outros dois do carro de trás. Quando começam os insultos insuflados, eu, que passava por ali, ainda não faço a menor idéia do que está acontecendo. Estava pensando em meios sutis de dizer pras pessoas que gosto de toddynho. "Achocolatado ao leite". Até hoje não encontrei meio de revelar isso sem parecer que tenho síndrome de Peter Pan.

Enfim, começa o entrevero e eu ali, ainda sem saber o que está acontecendo - mas note que é assim que agem os heróis, na reação automática, no fio da navalha das probabilidades, na calçada da incerteza psicológica, na correção monetária dos sentimentos humanos e outras metáforas que fazem pouco ou nenhum sentido.

Assim que me alertei para o perigo, Will Robinson, gritei alto pacaraio na calçada:
- "PAAAAAAARÔÔÔÔ!!"
Quando o volume da briga acalmou um pouco, pois prestaram atenção em mim, fiz uma pistola com as mãos e disse 'Vocês estão todos presos em nome da lei'. Os caras começaram a rir e se deram as mãos em amizade.

Enrolei meu pênis enorme na perna e fui embora com a sensação de dever cumprido.

18 de novembro de 2009

Ai, ai, Rio de Janeiro

Quem já me ouviu contar uma história sabe que não sou muito bom em narrar coisas de forma cronologicamente lógica (olha que bonito isso, "cronologicamente lógica", repita em voz alta), mas como o trabalho de organizar os fatos é exaustivo prefiro recorrer à mais fácil tática de mentir descaradamente entre uma verdade e outra. Mas, dessa vez, como as coisas que realmente aconteceram são mentiras demais para ser verdade, vou deixar as lacunas em branco mesmo.

A introdução da história é simples: um evento da área que estudamos, no Rio de Janeiro. Eu e vários colegas de laboratório vamos pra lá. Alguns com objetivos específicos, outros pela viagem mesmo. O que se sucedeu de interessante? Lá vão fatos desconexos.

Desde antes de ir pra lá: vários dos artigos que submetemos foram rebaixados ou não aceitos. Normal. O chato foi ver as (algumas) besteiras que foram. Não é inveja do tipo "eu poderia ter feito isso!", como quando se olha um quadro no museu. É indignação do tipo "eu não fiz isso porque é uma besteira completa!", como quando se olha um quadro no museu que foi pintado por um macaco.

Também antes de ir eu, especificamente, tive que plastificar minha identidade para poder entrar no avião. Como era visível a pressa, o atendente do local (no aeroporto) me cobrou a módica quantia de 10% do PIB. Já no Rio, alguns de nós não foram ver as principais atrações do evento porque simplesmente... não encontraram. Não que o local seja um labirinto, ou que seja muito grande, mas é que a sinalização existente só encontra explicação de ser se as pessoas que a colocaram lá secretamente filmam os turistas perdidos para vender as imagens para os Domingão do Faustão's do mundo. Ou isso ou, claro, gremlins.

Dois de nossos colegas foram para lá com o objetivo específico de conhecer possíveis orientadores de mestrado. Problema: um deles foi apresentado pelo apelido que recebeu no trote o tempo todo. Algo nas linhas de "Esse é o rosca, ele tá interessado em fazer mestrado contigo". Já o outro simplesmente não encontrou o orientador no evento. Além de oportunidades, perdemos algumas coisas. No avião de ida, em restaurantes, no albergue, no evento, na rua, nos pontos turísticos, no avião de volta e num táxi, já de volta em Santa Maria. Entre as perdas: casaco de couro, celular, guarda-chuva, cartão de crédito, crachá do evento, fone de ouvido, cartão de memória da máquina fotográfica, a carteira de identidade plastificada em (suponho) plástico feito a partir de ouro, e, por fim, as noções de higiene corporal. E não é para menos.

O quarto em que decidimos ficar, com três treliches (olha que legal, mais uma vez, sanduíche-íche), para nove pessoas portanto, era menor do que o menor quarto concebível por um homo sapiens, mesmo que muito imaginativo. Juro, tirei fotos e medições e tentei modelar o dito quarto em um programa de modelagem 3D e descobri que há algo de muito errado naquilo: segundo meus cálculos, deveríamos todos ter morrido sufocados durante a noite pelo CO2 expelido pelos demais - ou ter nos fundido em uma abominação com personalidades múltiplas. Felizmente, só parte dessas coisas aconteceu.

Além disso, com os banheiros coletivos, alguns preferiram tomar banhos mais temporalmente espaçados. E espacialmente: um no Rio de Janeiro, outro só no Rio Grande do Sul. Como estávamos em oito, um nono hospedeiro foi destacado para a cama sobrante: um senhor muito parecido com o Gargamel, dos Smurfs. Esse é, óbvio, o título do livro autobiográfico que um dia escreverei: "Eu mais oito no Rio de Janeiro dormindo com o Gargamel".

O albergue, ou hostel, era legal. O problema foi escolher o menor quarto do universo. Outro problema foi que, na cozinha compartilhada, encontrou-se um brócolis ancião em uma panela esquecida. Carinhosamente, apelidamos o brócolis de MummRá, o Ser Eterno. E o deixamos na panela, apesar dele implorar muito, inclusive em várias línguas, e chorar de forma muito semelhante a um bebê. Outro problema, que não destaco para não ser chamado de preconceituoso, foi o encontro de público gay que lá ocorreu durante nossa estadia. Uns vinte indivíduos dormindo no quarto ao lado do nosso, cuja parede que dava para o corredor era formada de tijolos de vidro translúcido. Esse foi o resumo da viagem para quem pediu a versão ultra-curta: teve um encontro gay no nosso albergue.

Ainda sobre o hostel, ele acabou com nossas piadas. Sem contar o evento gay, que acabou com o repertório de piadas do tipo "Vou tomar um banho, quem vem comigo?" (que eu tive a infelicidade de deixar escapar); uma bandeira de Israel e um relógio com o horário de Tel Aviv indicavam a origem israelita do estabelecimento. Ora, tendo nosso querido companheiro de laboratório de origem judaica viajando conosco, nos vimos privados de fazer as piadelas saudáveis que somos habituados a fazer no laboratório: "pede pizza de bacon com lombinho", "não quer deixar pra fazer sábado?". Qual é a graça de levar o judeu na viagem nessas condições?

Preocupados com as finanças, decidimos explorar a cuisine exótica que não se encontra no interior do Rio Grande do Sul. A saber: estabelecimentos baratíssimos onde, imagine, não se vende ovo em conserva e sorvete seco com balão grudado no açúcar. No Rio de Janeiro, se alguém se interessa, o negócio é procurar a venda do Chinês mais próxima - e não se preocupe, vai haver uma. Mas cuidado, pois o nosso Chinês próximo, por exemplo, não era muito bom no português: um colega pediu um pastel e recebeu, claro, um copo de açaí.

Um fator importantíssimo que marcou toda a nossa estadia foi a chuva onipresente. Choveu durante todos os segundos de todos os minutos que ficamos lá. Incrível. Choveu tanto que o mais cético de nós construiria uma arca para colocar animais aos pares caso ouvisse vozes do além. Tomamos banho de chuva, compramos guarda-chuvas ultrainflacionados dos camelôs do Rio (já mencionei que dentre as coisas que perdemos estava meu guarda-chuva?), ficamos com os tênis molhados o tempo todo...

É claro que quando se faz uma viagem de férias o único dia de sol é aquele em que se vai embora. Mas fomos embora muito cedo da manhã, só deu tempo de saber que aquele era o dia em que acabava a chuva. Bônus: não chovia há muito tempo em nossa cidade e, quando chegamos aqui, na volta do Rio, a chuva começou instantaneamente. É o que dizem: o que acontece no Rio, fica no Rio. Exceto as DSTs, o histórico escolar, a ficha policial, as dívidas, a culpa na consciência e a chuva onipresente.

Aqueles de nós que foram corajosos o suficiente para tentar ir na festa do evento sob chuva tórrida acabaram indo parar na festa errada. Não fui e só posso dizer que o resultado não deve ter sido satisfatório, para combinar com o resto da viagem.

O resultado da chuva foi devastador. Ficando a cinco quadras da praia de Copacabana, não colocamos o pé na areia. Pagamos uma soma exorbitante por um tour que resultou em não ver absolutamente nada no Cristo Redentor (por causa da Neblina) e descobrir que o sambódromo é uma falácia (é uma viela pequena e feia). Ainda no tour, nos separamos em dois grupos para visitar o Pão de Açúcar e um deles não conseguiu fazer a visita. Cinco colegas decidiram ir no último dia de manhã (que fez sol, lembram?), antes de pegar o avião e, pra isso, marcaram a visita bem cedinho. É óbvio, o guia chegou muito atrasado, quando eles já deviam estar indo para o aeroporto, e com um carro de quatro lugares para levar cinco pessoas. Até agora não sei como conseguiram pegar o avião. Suponho que tenham construído uma arca e negligenciado os pares de animais.

Eu e um colega de laboratório tínhamos o avião marcado para a mesma manhã, mas mais cedo. Assim, decidimos fazer essa parte do tour na tarde anterior, com chuva e tudo. E sem guia. Pelo menos nós conseguimos fazer o passeio, o que nos leva a crer que a viagem não poderia ter sido pior se tivesse sido planejada para tal pois nós dois, que fizemos o passeio pendurados numa caixinha de ferro e vidro muitos metros acima do mar, temos medo de altura.

Fomos nós com uma máquina fotográfica de um colega emprestada e lá, com os bilhetes na mão, pensei "vamos tirar as fotos aqui enquanto nossos rostos não estão contorcidos de medo". Prestes a entrar no bondinho, tentei tirar uma foto do colega. A máquina estava em modo vídeo.
Botei para o modo foto e tirei uma foto dos meus pés, para ajustar o flash. A máquina estragou logo depois. Resultado da visita ao Pão de Açúcar: um vídeo da nuca do meu colega e uma foto, escura, dos meus pés. Sem contar que esse colega perdeu o ticket de embarque no bondinho e, se não fosse um gaúcho que trabalha num café no topo do morro que descia conosco, teria que descer pela escada.

A melhor parte da viagem teria sido voltar pra casa, se não fosse meu companheiro de viagem me acordado a cada quinze minutos gritando 'o avião vai cair!', em vista do meu já mencionado problema de medo de altura.

15 de julho de 2009

Compreensão

- Opa.
- Oi.
- Cara, teu email logado no meu computador.
- Ahn?
- Olha.
- Que estranho. Eu nem usei esse computador ontem...
- Pois é. Desloga aí que eu quero logar no meu.
- Ok.

Sentando na cadeira, toca o telefone.

- Alô.
- Alô, cara, veio aqui ontem?
- Quem tá falando?
- Eu, porra. Veio aqui ontem?
- Eu não, que que foi?
- Teu email logado aqui no meu computador.
- Quê?

E antes de dar o clique em sign out, olho as últimas mensagens recebidas.
Primeira mensagem não lida; assunto: "Que brincadeira é essa?", de: "professor descontente".
Segunda mensagem não lida: assunto: "Who you and why you log mail here", de Chiin Yan Chi Jong.

Mensagens estranhas com o mesmo tema se repetem. Total de mensagens não lidas: dez mil. Aviso: mais mensagens recebidas. Mensagens não lidas: quinze mil. Trinta mil. Oitocentas mil. Todas de pessoas reclamando que loguei em minha conta em seus computadores.
- Cara, o que é que tu fez?

Desorientado, acesso um site de Notícias, destaque: pane na rede mundial de computadores faz todas as pessoas do mundo logarem na mesma conta de email.

Acordo abruptamente, com as mãos em frangalhos de tanto bater no que era o rosto do meu irmão de 6 anos, que veio me acordar assustado porque eu gritava durante o pesadelo. Mato ele e fico em reclusão por 20 anos. Escrevo um livro sobre o assunto e ganho um Nobel de Literatura.

Essa parte também era um sonho.

Acordei atrasado para uma prova e no caminho ainda tive que enfrentar um crocodilo gigante. E essa última parte não era um sonho, era um crocodilo gigante mesmo, mas depois de destruí-lo a golpes de punho descobri que era um construto mecânico.

9 de março de 2009

A origem das Listas

A lista deve ter sido a primeira coisa que o homem inventou. Antes até da escrita.

O cara chegava em "caverna" depois de um dia de caçada, batia nos filhos e estuprava a mulher (nada de carinho, amigo) e depois checava a sua lista de afazeres - que àquela época consistia em um simples amontoado de riscos na parede.

Cada risco significava uma coisa, dependendo do lugar onde era inscrito. Sobre a pedra azulada, por exemplo, eram quantas pessoas ainda precisavam ser mortas pra atingir a meta de assassinatos do mês. Em cima do tronco ("Mulher, cadê o tronco?! Traz esse moleque aqui que é hoje que eu dou ele pro tigre!") ficava a 'lista' de quantos animais deveriam ser caçados no dia seguinte. Traços mais gordos significavam animais maiores. O traço feito com a cabeça de uma criança de 12 anos friccionada contra a rocha, por exemplo, significava um elefante.

7 de março de 2009

Meio-mais-meio

Em mais um dos jantares pré-jogatina:
- Que tal levantar e ir embora? A gente tá sentado aqui faz mais de meia hora.
- Boa idéia.

E levantamos. Vamos para a fila do caixa pagar a conta, porque sair correndo sem pagar é tão last week.
- Ok, eu pago a coca que que a gente bebeu, mais isso, isso e aquilo - digo, apontando para a comanda - Eu calculo quinze com trinta, tô certo?

Várias batidas de dedos na calculadora, algumas anotações com a caneta no papel e a moça do caixa responde: sim.
- Eu pago só isso e isso - diz um colega de jogatina também empanturrado.

Mais cálculos, riscaria e a caixa anuncia o valor. Enquanto isso, separo minha parte do dinheiro e coloco sobre o caixa. Meu colega faz o mesmo logo depois e passamos o dinheiro para ela, que é quando temos uma idéia.
- Que tal levar umas cocas pra tomar durante o jogo?
- Boa. Quantas?
- Três.
- Eu pago uma e meia.
- Eu pago o resto.

Fazemos as contas, somamos com as dívidas da janta e pagamos. Tudo certo. E então recebemos o nosso pacote pra levar: duas cocas.
- Duas cocas? A gente pagou três - digo, calmo.
- Sim, mas vocês tomaram uma na mesa - responde a moça.
- Não, aquela tava inclusa nos quinze com trinta, certo?
- Certo. - diz ela depois de refazer o cálculo.

E sorri. E olha para a fila - que cresce como um pênis na savana onde não possui predadores naturais - como se quisesse chamar os próximos. Quer nos mandar embora sem nossa coca.
- Então... mais uma coca pra gente levar? - diz meu amigo.
- Então são mais três reais e cinquenta. - responde ela.
- Como assim? Se a coca que a gente tomou na mesa tá paga e a gente pagou mais três, falta uma aqui. Não queremos a quarta - argumentou.
- Mas vocês só pagaram duas extras - diz ela. Nesse ponto, as outras pessoas na fila começam a prestar atenção no que está demorando tanto.
- Não, a gente pagou três extras - diz meu amigo.
- É, eu paguei uma e meia e ele outra e meia.
- Então. - diz ela.
- Então! - digo eu.
- São duas cocas! - ela.
- São três cocas! - eu.

Pessoal na fila já rindo. Olho para meu amigo, que me olha, estamos desconcertados, como dizer para alguém na frente de outras pessoas que ela é péssima em contas simples? Ou sou eu que perdi o anúncio de que um e meio mais um e meio é igual a dois para valores pequenos de um?
- Olha, se eu paguei a coca que a gente tomou na mesa junto com minha janta, mais uma coca e meia - começo eu.
- Hum... - ela acompanha.
- São um-e-meio... - continuo.
- Hum... - ela acompanha.
- Mais um-e-meio... - continuo.
- Hum... - ela acompanha mais uma vez.
- Que dá três no total. - concluo.
- Hum...? - se perdeu.

Meu amigo dá uma risadinha nervosa. Vou tentar mais uma vez, penso, e partir pra tática da semana passada, sair correndo e derrubar algumas mesas para efeito dramático. Talvez dessa vez eu consiga chutar uma criança no caminho, no nosso jogo particular (Sair Correndo Sem Pagar Championship) chutar alguém no caminho vale dez pontos, crianças quinze. Crianças cegas vinte, mas não estava em condições de verificar a visão das vítimas potencias naquela hora, precisava me concentrar na explicação.
- Ok, tipo, um-mais-um dá dois, né?
- Hum... - ela acompanha de novo, penso que comecei bem.
- E meio-mais-meio dá um, né?
- Hum... - ela acompanha ainda, o cenário parece promissor.
- E um-e-meio mais um-e-meio é um-mais-um, que é dois, mais meio-mais-meio, que é um. Dois-mais-um dá três, certo?

Silêncio constrangedor, se não fosse a conversa ambiente, o barulho de pratos da cozinha, alguns carros passando na rua, os dois televisores ligados e as reclamações e risos do pessoal na fila. Ok, talvez não silêncio, mas ainda assim constrangedor.
- Ah! - diz ela, entendendo, graças à minha mímica particularmente genial que é deveras difícil de descrever e portanto deixo a cargo dos historiadores definirem como foi.

O pessoal na fila ri um pouco e reclama um pouco mais pela demora, mas eu e meu amigo estamos aliviados, não vamos precisar sair correndo e ainda vamos poder levar três cocas. A moça nos entrega o pacote (agora certo) e ainda tira uma desculpa de trás do balcão, não sei de onde (não quero parecer boca suja):
- É que eu achei que vocês não tinham pago a que tinham tomado na mesa...

Claro. Afinal, eu só repeti a conta uma vez e ela mesma duas. Ninguém é obrigado a acertar uma conta simples de soma nas primeiras cinco tentativas! Felizmente, no final pudemos pagar como bons cidadãos, levar nossas cocas, não apanhamos de ninguém que esperou a aula de matemática básica na fila e ainda por cima consegui chutar uma menina na porta. Depois menti pros amigos que ela era cega.
- Como assim? Vocês não viram que ela tinha um cachorro-guia?!

15 de dezembro de 2008

Herói

Era a primeira hora do dia. O nascer do sol mais tenebroso que qualquer habitante da cidade já vira. Era a época em que a lei pouco fazia, pouco valia, e os mais fortes e cruéis mandavam. O povo sofria e clamava por justiça em apelos jamais respondidos. Mas naquele dia, naquela hora, tudo mudou.

Basicamente, chegou um negão com uma motossera e quebrou pau em todo mundo.

15 de novembro de 2008

Presente surpresa

http://www.youtube.com/watch?v=7CsNZp5lsCI

Patrocínio

Trabalhando (ou praticando, já que não sou pago para fazer especificamente o que estava fazendo), ocorreu que deu vontade de ir ao banheiro. Usando o pior eufemismo já criado, "fazer o número dois", o que aliás é mascarar um ato fisiológico com numeração arbitrária como se isso fosse menos humilhante do que dizer "vou cagar".

Chegando lá, me coloco em posição e atuo (um eufemismo que não é tão trouxa). Estou lá atuando quando ouço aquelas conversas sobrepostas características de um grupo de amigos andando pelos corredores da faculdade. Depois de algum tempo, algumas vozes silenciam e eu sei que posso voltar ao que estava fazendo, porque só consigo atuar em paz (geralmente, só em casa).

Antes que prossiga a descrição da ação, cabe detalhar o ambiente. O banheiro em questão é daquele tipo onde há várias cabines separadas, cujas portas têm cada uma um espaço, embaixo, aberto, de uns 40 centímetros. Acho que é pra ventilar.

Enfim, voltando ao assunto: bem no meio de uma cena específica e particularmente trabalhosa (se é que você me entende), o susto: surge no meu campo de visão um par de tênis (vejo-os pelo buraco já mencionado) e então quase pulo com um murro fortíssimo dado na porta. Não lembro bem, mas provavelmente fiz som parecido com o de um ganso no momento do clímax sexual.

Assustadíssimo, levanto as pernas quando vejo um braço que alcança por debaixo da porta meu rolo de papel higiênico e o leva consigo. Durante todo o desenrolar, escuto um bom número de risadas de quem quer que fosse que estava fazendo aquilo comigo.

Ainda assustado e com a habitual boa educação, grito "puta que o pariu" a plenos pulmões e, torcendo pra não ter me perdido no script e espalhado a merda por todo o lugar, semi-levanto e abro uma fresta da porta.

Vejo um completo desconhecido com um sorriso de orelha a orelha e meu rolo de papel higiênico na mão. Ele me vê e murcha completamente, fica vermelho e exclama "Não é o Rudi!". As outras risadas, de pessoas que não vejo, silenciam por um milésimo de segundo e depois estouram, ficando ainda mais fortes. Escuto vários pares de pernas saindo correndo. O supreso desconhecido me alcança o papel e sai, mais envergonhado impossível.

Além de ganhar uma boa história para conversas de roda, aprendi uma atividade que pode se tornar um hobby: apavorar as pessoas no banheiro. Talvez mesmo uma profissão, porque já andei pensando até em patrocínio - vou lá, dou um susto, roubo o que conseguir pegar por debaixo da porta e ainda grito um slogan que, posso afirmar, a vítima nunca mais vai esquecer. É recall cem porcento.

30 de outubro de 2008

Remetências

Minha namorada liga já tarde da noite, de Porto Alegre:
- Recebi uma carta muito estranha, tô até assustada.
- De quem? Do quê?
- Não sei, muito estranha.

Depois de uma breve explicação sobre o conteúdo e situação, peço pra ela trazer pra dar uma olhada. E ela volta, e traz a carta.

O conteúdo da carta é realmente louco, fora da casinha, três vezes quatro igual a dois. Loucura total. Louco como ouvir Modern Talking, louco tipo escolher primeiro o magrelo asmático na repartição de times, bizarro mesmo como o gosto musical dos meus amigos. É o spam mais interessante que eu já vi, apesar de não estar na Internet. E aí eu percebo que estou frente a mais uma daquelas pérolas que vão se propagar ao redor do mundo como roteiro de um filme B superproduzido. Só consigo pensar: tipo, puta que pariu, o negócio já surgiu misteriosamente, tem como começar melhor que isso?
- Nunca ouviu falar dessa guria?
- Não.
- Ela mandou isso aqui pra tua casa?
- Não, isso se apareceu no bolso do meu casaco, garanto que era pra outra pessoa.

Era para outra pessoa.

E morre aí um mistério tão promissor, com uma hipótese tão simples e tão provavelmente verdadeira que acaba com toda a graça. Não contente com esse final para meu roteiro de filme de terror pipoca, tento lutar contra o óbvio:
- Acho que era pra ti mesmo, quem sabe? - esperançoso.
- Não, todo mundo tem um casaco igual ao meu na faculdade.
- Eu não tenho!

Péssimo argumento, só a expressão dela já mostra que é fim de papo, foi um engano. Mas de qualquer jeito, eu chego em casa determinado a passar a Lenda da Carta Bizarra adiante. Eis minha surpresa quando sento para passar o conteúdo bizarríssimo para o computador quando, colocando a mão no bolso, percebo que ela sumiu.

Desapareceu completamente.

Tipo, puta que pariu, agora o negócio some, do além, sem deixar vestígios? Pelo menos não dizia nada sobre mandar para pelo menos 15 pessoas ou ser atropelado pela alma de um mestre bruxo numa motoneta militar. Que eu lembre. Por via das dúvidas, vou mandar uns emails.

30 de agosto de 2008

Sono

Ligar quase de madrugada é bom, gera conversações do tipo:

- Alô.
- Nhôi - voz de sono.

Percebe-se uma oportunidade e lá vai a imaginação correndo nua e solta:
- Tu viu o meu sapato?
- ...que? - voz de sono.
- Aquele do sanduíche.
- ...ahn? - interjeição de sono.
- Que o gigante fez.
- ...que? - sono.
- Tu viu quem foi que fez os quatro buracos?
- ...aaaai, deixa eu dormir - um pouco menos de sono.
- Beijo!

Tututututu

Confundir namorada sonolenta é um bônus raramente reconhecido, e em geral mal aproveitado, de namorar. Eu, pelo menos, aproveito ao máximo.

20 de julho de 2008

Culpa sua

Era fim da tarde e eu precisava almoçar pois que não o tinha feito naquele dia, nem no anterior. E, pelo saudável hábito de jamais ter tomado café da manhã, só o que me restava de alimentação nas últimas 48 horas era uma bacia de pipoca de microondas na janta. Do dia anterior.

Minhas incríveis habilidades alimentares postas de lado, continuemos: visto que a maior parte da comida que consigo preparar é manufaturada, já vem pronta, congelada ou com um pacotinho de pó amarelo sabor galinha (ou cinza bacon, ou vermelho gado), eu nunca prestei atenção na qualidade dos condimentos que tinha em casa. Até precisar deles, nesse dia, e descobrir que na verdade eu não os tinha de forma alguma.

Fui bater na porta dos vizinhos, no apartamento da frente, sem sair correndo e rindo como uma criança, como de costume. Atendeu o vizinho:
- Oi.
- Oi.
- Eu tô me aventurando na cozinha mas não tenho nem sal, por acaso... -

A pausa aí não foi em reverência nem em susto, foi uma daquelas pausas 'o que é que eu vou dizer mesmo?', com a diferença de que eu sabia o que queria dizer, mas não consegui porque percebi que o vizinho estava nu da cintura pra baixo.

Reação primera: levantar a sobrancelha em dúvida. Depos, erguer o olhar, fazer uma cara de desfinado. Ainda, fingir que nada está acontecendo, inspirar e tentar terminar a frase. Por fim, racionalizar o acontecido e por alguma razão pensar em como coisas que são engraçadas de contar não nos fazem rir no momento.

Agora, não me leve a mal. Eu não sou o primeiro a chamar a polícia quando alguém, dentro da própria casa, resolve ficar com a metade do corpo pra fora das roupas, mas é má educação atender à porta assim, sem contar que geralmente a parte desnuda é a de cima.

E nesse caso, eu preciso apontar, além de estragar minha fome a calma passiva do indivíduo atendendo a porta pelado pelado me abalou (ou enervou) de tal modo que foi uma reação instantânea e fruto da minha polidez exemplar exclamar:
- ...velho, tu sabia que tu tá de pau de fora?
- Ah... é mesmo.
E depois de uns cinco minutos procurando uma cueca, ele me volta e diz que não sabe onde o sal está, quem saberia me dizer é a esposa e ela infelizmente fugiu com alguém e com alguma quantia considerável de dinheiro e a senha da conta no banco. Menos mal, pensei eu, que tenho um vizinho que não é um tarado exibicionista. É só um cara que leva um golpe daqueles de novela e fica atordoado a ponto de por o pau ao vento (figurativamente, pois não venta nos corredores do prédio).

Isso aconteceu faz uns dois anos e até hoje não dormi sem chavear bem a porta. Isso pode parecer pouco, mas considere que eu já me mudei de prédio. Duas vezes.

2 de março de 2008

Doze Mãos - Capítulo 5

Capítulo cinco

Engraçado, pensei eu, deve existir um lugar realmente aconchegante para que, para ficar comigo, ela queira passar por esse corredor escuro, cheio de homens fedorentos e capangas fortemente armados e ameaçadores.
- OK – disse um deles, com voz jovem, quando eu já estava amarrado numa cadeira.
- OK – eu respondi cordialmente.
Sussurros.
- Você se acha muito esperto – disse ele.
- Você não sabe o quanto – respondi automaticamente.
- Você não sabe quem eu sou.
- E você, sabe?

Tenho essa mania de ser enigmático. Apanhei durante meia hora.

- Você há de perdoar meu filho – disse um deles, mais velho – é novo nos negócios, eu o trago para essas missões de treinamento, mas ele simplesmente não evolui na arte da tortura e do interrogatório.
- Está desculpado – disse eu, cuspindo um dente.
- Obrigado – disse o jovem, de forma sincera.
- Você é Henrique Dias Huinz, o irmão do Capitão Geral da Brigada do Povo? – disse o pai do garoto, muito mais mal educado que ele.
- Ora, pois, sim.
- Queremos a arma – ele disse.
- Que arma?
- A arma. Que seu irmão lhe confiou, e você escondeu em algum lugar – disse, dessa vez demonstrando irritação. Se ele ao menos soubesse o quanto seu bafo era intimidador, não perderia tempo mudando a entonação da voz.
- Não sei do que se trata.

Apanhei por mais meia hora, embora dessa vez meu senso sobre o tempo tenha ficado prejudicado porque, depois dos primeiros quinze minutos, eu tivesse começado a sentir o corpo novamente.
- Pronto pra falar? – disse o jovem.
- Eu nasci pronto – respondi.
Silêncio.
- E então?
- É um revólver bucal. Está instalado no barman.
- Você mente – disse, parecendo entusiasmado por ter arrancado uma informação de mim. Engraçado, me importavam mais os pedaços físicos que tiveram o mesmo destino.
- Sim. Mas se eu realmente dissesse que ela estava gorda...
- Não! Estou falando que você está mentindo agora.
- Claro. Você me pergunta algo que não sei do que se trata, sem nem ao menos se apresentar, e...
- Sou Higor de Har.

O nome era famoso. Não tinha certeza se era um por que havia alguém com esse nome na minha turma de dança ou se esse era o verdadeiro Higor de Har, filho de Heitor de Har, o Mafioso. Era uma honra ser espancado por aqueles homens famosos. Ou, por um bailarino tão habilidoso.
- O que vocês querem? – eu disse, dessa vez realmente querendo cooperar.
- A arma. Deve estar em uma caixa, ou invólucro, ou algo do tipo.

Lembrei-me de tudo.
- Meu querido Bog nos proteja – deixei escapar entre o segundo e recém-adquirido terceiro lábio.
- O que houve? – perguntou o pai, Heitor de Har.
- Fomos todos enganados. Eu, vocês, o governo da Nova República.
- O que é a arma? – disseram uns quatro ou cinco deles ao mesmo tempo, embora eu pudesse discernir um pedido de ‘posso ir ao banheiro’ entre eles.

Pensei em como explicar que um homem chamado Ruy havia me embebedado por semanas a fio, com o objetivo de me transformar num peão, e de absorver todas as informações de que precisasse. E de se livrar de mim, sem ter de sujar as mãos. Simplesmente discutindo comigo e me mandando ir comprar comida, sabendo que eu fugiria para beber.
- Um homem narigudo chamado Ruy tem uma caixa com poder suficiente para explodir toda Novíssima Iorque. Mas esse não é o nosso maior problema.
- E qual é nosso maior problema? – indagou Higor.
- O meu é escapar com vida agora que lhes dei a informação que queriam. O seu, é escapar do raio de ação da pistola de concussão que essa loura aí atrás segura, apontando para vocês.

A mulher que havia me atraído para esta armadilha se voltava contra seus empregadores. Ela estava roubando o único que poderia encontrar Ruy, a bomba, e defeitos nos antiquados filmes 2D de Stanley Kubrik: Henrique Dias Huinz. Eu.

2 de fevereiro de 2008

Já te contei que lá em Santa Maria...

Ok, então aqui vai uma história exemplar do terceiro capítulo do Manual da Conversa de Roda. Dia 30 de janeiro de 2008, procurando apartamento pra alugar, surge a idéia de comprar um e nunca mais pagar aluguel. Paramos numa imobiliária, pegamos uma chave e, junto do corretor, vamos até o prédio dar uma olhada.

Entramos na parte comum do prédio, que é bonitinho mas ordinário, chegamos ao bloco IV, entramos, subimos quatro andares de escada e chegamos ao apartamento 411. A grade externa da porta está aberta - o que é estranho, sei por experiência que apartamentos vazios são geralmente mais lacrados do que quando há alguém morando neles. Nem pensei nisso na hora, mas aí o corretor abre a porta.

Abrindo a porta a visão é essa: uma sala vazia que tem porta para uma cozinha e é ligada a um curto corredor que tem uma porta na esquerda, para um quarto, uma direita, banheiro, e uma ao fundo, outro quarto.

Da porta do fundo salta um cara qualquer, meio ofegante. Ele fala rápido, bem nervoso que 'tô olhando o apartamento'. O corretor já meio acusa, meio pergunta, qual imobiliária? O cara responde, ahm, aquela da Venâncio, mais como quem quer adivinhar.

Pensei: prooonto, que legal, o cara pegou a chave pra vir olhar o ap (quando é só pra alugar, ninguém da imobiliária vai junto), fez uma cópia e tá dormindo aí, bem feliz. Achei que o corretor ia chamar a polícia. Minha mãe me chama pra ver alguma coisa na sacada, e eu perco a parte da conversa em que o cara se explica, mas escuto o corretor falando pra ele 'pegar suas coisas e sair'.

Achei que era uma situação desconfortável, mas ela fica pior: o rapaz fala alguma coisa sobre privacidade. O corretor se irrita. Aí eu vejo de relance mais alguém dentro do quarto. O corretor xinga o cara e pede gentilmente pros meus pais irem pra cozinha, e eu junto. Só que eu fico perto da porta e olhando para dentro do banheiro vejo alguma coisa largada no chão - roupas.

Aqui a a história faz sentido, ATENÇÃO QUEM NEM LEU, PUTARIA: o cara tinha levado uma guria pro apartamento. Fazendo o lugar de motel. Não acreditei. Primeira coisa que pensei foi que ninguém pode ser tão burro a ponto de querer fazer um apartamento vazio de motel quando, numa cidade universitária, há menos de 24 horas foram anunciados os felizardos que passaram no vestibular. É provável que TODO apartamento vago tenho sido visitado duas ou três vezes nesse dia.

Mas era verdade. O corretor estava morrendo de vergonha e assim que meus pais se entreteram na cozinha, o feliz casal ganhador de disfunção sexual por trauma psicológico vazou do local. O corretor pediu desculpas, coitado.

Curiosidade: eu estava com a máquina fotográfica em mãos, pendendo do pescoço por um cordão. O propósito era tirar fotos dos cômodos pra depois avaliar com mais calma e poder contar para o meu atual colega de apartamento com mais precisão sobre o lugar. Ok.

Talvez eu tenha tirado uma foto do rapaz assim que entrei pela porta. Talvez não.
Talvez eu esteja esperando como um crápula pra que ele fique sabendo e entre em contato.
Talvez eu esteja disposto a colocar essa foto com uma narração melhor dessa história num site pra todos poderem dar risada como eu dei. Talvez eu não faça isso mediante uma certa quantia.

Talvez eu tenha deletado a foto antes de sair do apartamento porque alguém que não tem dinheiro pra pagar um motel provavelmente não tem para sofrer extorsão. Mas que ia ser engraçado, ia.

10 de dezembro de 2007

O Manual da Conversa de Roda

Capítulo 3
[Indicador de mito][situação][acontecimento], não necessariamente nessa ordem.

Indicador de mito
Um indicador de mito é um princípio de frase que mostra claramente que o que está por ser dito até o ponto final (ou de interrogação, exclamação, etc.) é uma história 'daquelas', com teor provavelmente falso.
Indicadores de mito mais comuns:
- "Já te contei que lá em..."
- "Que nem aquele cara de..."
- "Isso já aconteceu em..."
- "Lembra daquela vez..."

Situação
Um denotador de situação, tempo e muitas vezes localização.
Situações, tempos e locais mais comuns:
- Cidades pequenas: Cerro Largo, Três de Maio, Constantina, Ijuí, Santiago, Jaguari, Santa
Cruz, Santa Rosa, só pra citar algumas.
- Infância remota: "Quando eu era pequeno".
- Vida social: "No segundo grau, na época das festas", "Quando a gente jogava xadrez toda quinta".
- Peculiaridades locais extremamente detalhadas impossíveis de serem confirmadas, talvez porque provavelmente só existam (pelo menos da forma descrita) na memória do narrador: "Naquele mercadinho que vendia bala que explode, na esquina da Barão, que já fechou faz uns cinco anos, lembra? Que tinha aquela janela esmeralda que parecia um vitral, que o Jona disse que achava que o desenho era uma mão e era um sapo..."

Acontecimento
Aqui a imaginação rola solta.
Fatos comuns:
- Certamente verídicos:
"Não aconteceu nada fora do normal";
"Fiquei com uma gordinha espinhenta e chata";
"Não fazia festa naquela época".
- Provavelmente verídicos:
"Quebrei a janela do vizinho";
"Fiquei com aquela gordinha simpática";
"Meu pai não quis levar a gente na festa".
- Talvez verídicos:
"Morreu um cara atropelado por uma carroça";
"Fiquei com aquela magricela peituda";
"A gente andou 10Km pra ir numa festa que era no trevo".
- Provavelmente inverídico:
"Um policial deu um tiro de doze num caminhoneiro que estacionou bêbado na praça, arrancou o braço dele";
"Fiquei com uma guria tri-gata";
"Caminhamos 10Km até o trevo, desistimos de ir na festa, roubamos uma placa no trevo, carregamos até a cidade, os policias pegaram a gente e fizeram levar de volta. Deu uns 30 quilômetros numa noite, 20 desses carregando a placa!";
- Mentiras deslavadas:
"Cara, pousou, assim, no quintal, brilhante! Parecia que tava pegando fogo, e desceram esses homenzinhos.... juro!"
"Fiquei com a miss", podendo variar até "com a Gisele Bündchen quando ela morava em Horizontina".
"Já fui preso, sabia?".

Na categoria Acontecimento, pode inventar o que quiser que vale. Se não valer, troque um dos itens anteriores por outra coisa completamente diferente.
"Eu disse Cerro Largo? Eu quis dizer Três de maio";
"Eu disse segundo grau? Eu quis dizer escolinha de futebol";
"Eu disse que aconteceu comigo? Não, não, foi com um primo de um vizinho".

Veremos no capítulo IV como direcionar a conversa para abordar os aspectos positivos da sua personalidade.

4 de dezembro de 2007

Juro.

Sempre que leio algo sobre a dor, me pergunto se os bons escritores escrevem sobre esse assunto com alguma coisa doendo. Acho que vou passar a me machucar pra ler, é o mínimo que eu posso fazer pra apreciar a leitura e o esforço dos caras. Essa é a minha história sobre a dor.

Mancando feio, fui até o terminal, melhor caminhar agora que agüentar meia hora em pé no ônibus chacoalhante, e além do mais pra me segurar ia precisar erguer os braços e meu desodorante é uma merda e já estou fedendo. Vou mancar agora pra não sofrer depois.

Sento bem em frente à porta de entrada do ônibus, segunda parada ainda dentro da universidade entra uma amiga, senta, conversamos. Menciono o pé, e falo como foi que aconteceu, e digo que vem acontecendo bastante. Brinco que aconteceu isso com um amigo meu, que não é nada pra se preocupar, ele teve que amputar os quatro membros mas a operação é indolor.

Mais conversa, algum tempo depois, o pé vem à tona da conversa e ela diz: "não dá nada, só amputar e melhora". Mais conversa, ela passa à frente, passa a roleta, pra descer do ônibus. Ela não chegou à porta de saída ainda quando olho para o cara que estava sentado ao lado dela. Alemão, forte, camiseta branca e boné bege. Ele tem uma camiseta com um endereço de site: www.encontrodeamputados.com.br (e o site existe, pode crer).

Ah, não, o universo não faria uma sacanagem tão forte comigo. Não no mesmo dia que machuquei meu pé e ele dói tanto. O alemão levanta. Ele tem uma perna mecânica, é a esquerda, que estava fora de meu campo de visão (e da minha amiga) enquanto ele estava sentado. Me olha de canto de olho, com uma cara de brabo, deve achar que as duas vezes que falamos em amputar estávamos falando dele, como se alguém fosse escroto o suficiente pra brincar com isso nessa situação de propósito.

Essas coisas sempre acontecem com um amigo de um amigo, e não estou falando de tráfico, mas de lenda urbana. Hoje foi comigo. Merda.

17 de julho de 2007

Obtenha a Felicidade Completa.

Seja sincero. Você sabe, você sente que há mais na vida do que as coisas que experimenta diariamente. Você sabe que novas experiências podem até satisfazê-lo por alguns instantes, mas não lhe trarão a felicidade completa. Há um vórtice dentro de você, que cresce a cada dia e faz fraquejar sua força de vontade. Você, estimado(a) colega, é mais uma alma perdida esperando ajuda para escapar do seu ciclo de dor.
Vejamos, numa tradução livre, o que especialistas no assunto têm a dizer:

"A existência implica dor, a origem da dor é o desejo, a superação da dor só é possível mediante o fim do desejo"
- Siddhartha Gautama, Príncipe Iluminado.


NOTA: Essa afirmação por si só nos despoja da necessidade de outras. Os demais especialistas no assunto foram convenientemente ignorados como confere direito a lei Nº44456-098.66. Se essa lei não for encontrada, reservamo-nos o direito de apontar alguma que nos caiba sentido no momento como tal.

É disso que precisamos. Terminar com nossos desejos. Só há dois meios de atingirmos esse objetivo.
O primeiro, clássico, envolve concentração, meditação, muito empreendimento, sabedoria, uma árvore, animais de fábula e predisposição para iluminação. Iluminado, você a) se torna um personagem de Stephen King ou b) se livra de seus desejos e conseqüentemente, da dor.
Ora, se isso também lhe parece muito trabalho para uma chance de 50%, e em caso de sucesso, iluminação que dura somente
uma encarnação; só lhe resta tentar o segundo modo.

O revolucionário, mas ainda assim clássico, sistema de
Compra da Felicidade.

Sim!
Agora estamos falando de algo que você, capitalista conivente, tem tempo e disposição para persecutar! Conhecido através da história como 'oferenda material aos deuses', 'doação humanitária', 'conta do bordel' ou simplesmente 'compra de cadeira no céu'; esse método é aprovado por 9 entre 10 usuários! Sendo que a última pessoa do grupo geralmente é um muçulmano e, convenhamos, só ouvimos falar deles! Não deixe que uma pequena parcela da população mundial pertencente a um grupo obviamente mítico fique no seu caminho para a iluminação!

Como funciona: você envia o valor da sua Felicidade (possivelmente tudo que você possui) para a minha conta bancária e
nunca mais se preocupa com nada! Assumindo que você entendeu a senteça prévia, mesmo ela contendo uma dupla negativa, veja só as oportunidades que você está deixando escapar; literalmente deixando escorrer por entre seus dedos!

Forma física e vida sexual - você nunca mais vai se preocupar com sua forma física, uma vez que vai estar
feliz e contente com a atual! Como? Isso porque sem a tensão sexual presente em sua vida, já que você vai estar feliz com a que tem (mesmo que seja nenhuma), você não terá obrigação nenhuma para com ninguém!

Situação Financeira - Já que você terá enviado todo seu dinheiro para mim e portanto, estará sem nenhum - ficando feliz com isso -, você não precisará se preocupar com isso. É certamente impossível viver de amor, mas o ditado nunca mencionou nada sobre felicidade. Ignora minudências como necessidade de comida, moradia e interação física. Com sorte, pessoas que lhe provêem esses serviços também serão usuários de nosso sistema e não se importarão em lhe servir de graça - pois como completamente felizes com sua situação financeira.


Consciência Social - Mais uma grande sacada da sua fornecedora de Compra da Felicidade! Enviando-nos o seu dinheiro, parte dele (90%) será destinado a uma organização sem fins lucrativos. Assim, você estará ajudando uma dentre muitas organizações sociais - obviamente composta por pessoas que ainda não compraram sua felicidade e se importam - existentes mundo afora. Sendo possível que seu dinheiro seja destinado a conscientização/manutenção/reabilitação ambiental (nota: a cargo da organização que receber a doação), isso também satisfaz todas as suas necessidades - ou melhor, elimina seus desejos - de contribuir para um melhor meio-ambiente.

Existem mais facetas da sua vida que serão
aperfeiçoadas ao extremo com o sistema de Compra da Felicidade, mas já que compreendem toda a sua vida- e você está cansado de saber dela-; e que você certamente não deseja perder mais tempo nessa sua atual existência infeliz, não as listaremos aqui. Até mesmo porque, depois da Compra da Felicidade, você não mais se importará, pois estará totalmente satisfeito.

Você quer
mais? Mais não será necessário, mas caso sua felicidade esteja incompleta sem um pequeno abono, você poderá se beneficiar da nossa super-promoção imperdível Compra da Felicidade com desconto! Sim! Você paga o que acha que deve, sendo 90% (noventa por cento!) enviado para uma instituição social ou de caridade e você ainda ganha desconto de 50% (cinqüenta porcento!) sobre os 10% restantes!
É o negócio da China, que aliás, você nunca mais irá desejar visitar, já que estará feliz onde está!


Você paga menos do que acha justo! É uma promoção maluca ou não é?
NOTA: Se tirar vantagem de um sistema que só lhe quer bem lhe parece injusto e portanto lhe faz infeliz, você pode optar por não se beneficiar de tal promoção.

Adquira hoje mesmo sua felicidade entrando em contato com este que vos escreve através do email vinigottin@gmail.com e arrisque-se até mesmo a ganhar uma camiseta numa Compra da Felicidade acima de R$50,00 ou, para estrangeiros, o equivalente em dólares no momento da
efetuação da compra.



SOON IN ENGLISH VERSION for all you suckers who are not aware of Brazilian internet domination and still haven't tried to learn portuguese, thus givin us an advantage in the soon-to-come war.