desculpe, não tenho talento.

Nada dito aqui deve ser levado a sério. Deve ser levado ao forno por 30min. Não se sinta culpado ao não servir, eu também não sirvo pra nada. Blog melhor visualizado em resolução 1680x1050 pixels, em monitor SAMSUNG de 22 polegadas e sob efeito de psicotrópicos. O blog é ruim e os posts mais novos não vão pro topo. O limite de caracteres nessa mensagem é 500, então sobrou espaço: vendo monza 83.

Pigmons

Eu já tinha tomado banho e a Luíza gritou vai tomar banho. Não era xingamento, era ordem, porque agora a gente mora num apartamento que tem espaço pra zanzar, e eu zanzo às vezes enquanto ela tenta assistir Netflix. Aí ela manda eu ir tomar banho, lavar louça, levar o Shih Tzu no cromoterapeuta, etc. pra sair de perto.

Só que eu já tinha tomado banho e ela, enrolada no sofá com almofadas e uma coberta rosa, ainda não. Aí eu retruquei que ela que devia ir tomar banho, que rosa e enrolada ela parecia um Pigglypuff, uma mistura de Pig com Jigglypuff.

Aí ela ficou competitiva e começou a procurar um Pokémon pra transformar em Pig, mas não conhecia, de nome, nenhum. Recorreu à ajuda do concorrente: como é o nome daquele que era um ovinho? Aí eu falei: Togepi. Eu sabia que era fácil ela emendar um TogePig, mas pratico a guerra justa.

Só não lembrava que a Luíza além de não lembrar de Pokemón é terrível com trocadilho então tentou aplicar prontamente em aliteração: Pigpi.

Não tem nada demais, mas até hoje dou risada.

Rubinho

Outro gato de Copacabana é o Rubinho, fica numa loja de madeira, tinta, caixinhas, essas coisas. Fica lá, sentado no balcão. Já tinha ouvido falar (e muito) do Rubinho quando fui lá conferir e ele estava bem quieto, gordo e confiante. Na entrada da loja, tem uma placa 'cuidado - gato arisco com crianças'.

Aí uma menina que estava na fila de pagamento olhou pra ele. Ele olhou de volta, meio de lado, canto de olho. O dono da loja percebeu o interesse e esperou a pergunta, que ela fez mesmo: posso fazer carinho nele?

Olha..., disse, o Rubinho não gosta muito de criança, não. Ela considerou o risco de um arranhão por alguns segundos até o Rubinho dar uma daquelas chicotadas com o rabo que insinua perigo. Triste, pagou e saiu.

Ela tinha acabado de sair pela porta e o gato olhou pro dono,  como que esperando. O dono sorriu e fez um carinho de leve entre as orelhas do gato. Até hoje lembro da cena e me dá a impressão de que eles têm algum tipo de acordo. Toda vez que o Rubinho não arranha uma criança ganha um carinho.

Sempre as mesmas

Preciso parar de contar sempre as mesmas histórias. 


Ninguém aguenta mais ouvir que a Luíza tem que fazer voltas em Copacabana porque não pode passar perto da Serzedelo Correia desde que saiu correndo sem pagar a dívida de aposta no dominó com os velhos da praça.

Protesto

"Polícia joga livro de Cálculo e dispersa multidão na reitoria da USP", página 10.

Páginas 11 a 58: futebol.

Seis graus de separação

Hoje o mundo é conectado e todo mundo já ouviu falar na teoria dos seis graus de separação. E quem não ouviu pode ir ali pesquisar no Google: se considerar um conhecido de um conhecido (seis vezes), você conhece todo mundo. Todo mundo mesmo, pode ser o Obama, um traficante de órgãos, um chinês cego e malabarista, por exemplo.

Quando morei na República da Sagrada Castidade morou com a gente um cara cuja situação era (ou era pra ser) passageira, de forma que dormia com ele a própria noiva. Ele procurou lugar pra morar por um tempo até combinar com a cunhada que eles, os três, dividiram um apartamento. Nos trâmites de procurar um apartamento maior, com os prazos de cá pra lá e de lá pra cá se cruzando, aconteceu que foi necessário a irmã da noiva dormir por uns meses lá na república, também.

No quarto compartilhado, dormíamos quatro (eram três camas e, variavelmente, de duas a cinco escovas de dente). No quarto individual, já dormiam ele e a noiva, de forma que a irmã da noiva se viu obrigada a dormir nos aposentos gerais. Só pra contextualizar, antes de adiantar que o namorado da irmã da noiva também se viu necessitado de dormir lá pelo mesmo período.

O leitor esperto já entendeu onde vamos chegar. O namorado da irmã da noiva do colega de apartamento tinha um irmão, que - claro - precisou ficar lá por uns tempos. Ele - claro - por uns dias precisou dar pouso a um amigo. A essa altura já não se sabia muito bem se existiam fronteiras de privacidade (muito antes do tal de Snowden confirmar), ainda mais quando o último elemento dessa cadeia toda teve o entrosamento de colocar música alta pra tocar na sala, depois de um dos moradores oficiais ter ido lá baixar o volume explicitamente. Como diz meu amigo que estava lá comigo na época: intimidade é uma coisa que o ser humano cria sob demanda.

Segundo a teoria dos seis graus de separação, o amigo do irmão do namorado da irmã da noiva do meu colega de apartamento poderia muito bem ter sido o Obama, um traficante de órgãos, ou um chinês cego e malabarista.

Rio de Janeiro I

Há muitos anos vim pela primeira vez ao Rio de Janeiro. Não vim para morar, mas para um congresso, com diversos colegas de laboratório. Aconteceram tantas desgraças que antes de voltar já nos reunimos para compilar uma lista de forma a não caírem todas no esquecimento.

Eis, aqui, a lista, até agora inédita - por motivo: ninguém se importa. Mas recordar é viver.

2009

Vários dos artigos que submetemos foram rebaixados ou não aceitos. Normal. O chato foi ver as (algumas) besteiras que foram. Não é inveja do tipo "eu poderia ter feito isso!", como quando se olha um quadro no museu. É indignação do tipo "eu não fiz isso porque é uma besteira completa!", como quando se olha um quadro no museu que foi pintado por um macaco.

Tive que plastificar minha identidade para poder entrar no avião. Como tudo num aeroporto, custou 10% do PIB. Já no Rio, alguns de nós não foram ver as principais atrações do evento porque simplesmente não encontraram. Não que o local seja um labirinto, ou que seja muito grande, mas é que a sinalização existente só tem explicação se as pessoas que a colocaram lá secretamente filmam os turistas perdidos para vender as imagens para os programas de TV ruins do mundo.

Dois de nossos colegas foram para lá com o objetivo específico de conhecer possíveis orientadores de mestrado. Problema: um deles foi apresentado pelo apelido que recebeu no trote o tempo todo. Algo nas linhas de "Esse é o Rosca, ele tá interessado em fazer mestrado contigo". Já o outro simplesmente não encontrou o orientador no evento.

Além de oportunidades, perdemos algumas coisas. No avião de ida, em restaurantes, no albergue, no evento, na rua, nos pontos turísticos, no avião de volta e num táxi, já de volta em Santa Maria. Entre as perdas: casaco de couro, celular, guarda-chuva, cartão de crédito, crachá do evento, fone de ouvido, cartão de memória da máquina fotográfica, aquela carteira de identidade plastificada em (suponho) plástico feito de ouro, e, por fim, as noções de higiene corporal. E não é para menos.

O quarto em que decidimos ficar, com três treliches, era menor do que o menor quarto que você já viu. Juro, tirei fotos e medições e tentei modelar o dito quarto em um programa de modelagem 3D e descobri que há algo de muito errado naquilo. Como cabemos, não sabemos.

Além disso, com os banheiros coletivos, alguns preferiram tomar banhos mais temporalmente espaçados. E espacialmente: um no Rio de Janeiro, outro só no Rio Grande do Sul. Como estávamos em oito, um nono hóspede foi destacado para a cama sobrante: um senhor muito parecido com o Gargamel, dos Smurfs. Esse é, óbvio, o título do livro autobiográfico que um dia escreverei: "Eu mais oito no Rio de Janeiro dormindo com o Gargamel".

O albergue, ou hostel, era legal. O problema foi escolher o menor quarto do universo. Outro problema foi que, na cozinha compartilhada, encontrou-se um brócolis ancião em uma panela esquecida. Carinhosamente, o Brócolis havia sido apelidado de Mumm-Rá.

Outro problema, que não destaco para não ser chamado de preconceituoso, foi o encontro de público gay que lá ocorreu durante nossa estadia. Uns vinte indivíduos dormindo no quarto ao lado do nosso, cuja parede que dava para o corredor era formada de tijolos de vidro translúcido. Esse foi o resumo da viagem para quem pediu a versão ultra-curta: teve um encontro gay no nosso albergue.

Uma bandeira de Israel e um relógio com o horário de Tel Aviv indicavam a origem israelita do hostel. Ora, tendo nosso querido companheiro judeu de laboratório viajando conosco, nos vimos privados de fazer as piadelas saudáveis que somos habituados a fazer no laboratório: "pede pizza de bacon com lombinho", "não quer deixar pra fazer sábado?". Qual é a graça de trazer o judeu junto nessas condições?

Preocupados com as finanças, decidimos explorar a cuisine exótica que não se encontra no interior do Rio Grande do Sul. A saber: estabelecimentos baratíssimos onde, imagine, não se vende ovo em conserva e sorvete seco com balão grudado no açúcar. No Rio de Janeiro, se alguém se interessa, o negócio é procurar a venda do Chinês mais próxima - e não se preocupe, haverá uma. Mas cuidado, pois o nosso Chinês próximo, por exemplo, não era muito bom no português: um colega pediu um pastel e recebeu, claro, um copo de açaí.

Um fator importantíssimo que marcou toda a nossa estadia foi a chuva onipresente. Choveu durante todos os segundos de todos os minutos que ficamos lá. Incrível. Choveu tanto que o mais cético de nós construiria uma arca para colocar animais aos pares caso ouvisse vozes do além. Tomamos banho de chuva, compramos guarda-chuvas inflacionados dos camelôs do Rio (já mencionei que dentre as coisas que perdemos estava meu guarda-chuva?), ficamos com os tênis molhados o tempo todo...

É claro que quando se faz uma viagem de férias o único dia de sol é aquele em que se vai embora. Mas fomos embora muito cedo da manhã, só deu tempo de saber que aquele era o dia em que acabava a chuva. Bônus: não chovia há muito tempo em nossa cidade e, quando chegamos aqui, na volta do Rio, a chuva começou instantaneamente. É o que dizem: o que acontece no Rio, fica no Rio. Exceto as DSTs, o histórico escolar, a ficha policial, as dívidas, a culpa na consciência e a chuva onipresente.

Aqueles de nós que foram corajosos o suficiente para tentar ir na festa do evento sob chuva tórrida acabaram indo parar na festa errada. Não fui e só posso dizer que o resultado não deve ter sido satisfatório, para combinar com o resto da viagem.

O resultado da chuva foi devastador. Ficando a cinco quadras da praia de Copacabana, não colocamos o pé na areia. Pagamos uma soma exorbitante por um tour que resultou em não ver absolutamente nada no Cristo Redentor (por causa da Neblina) e descobrir que o sambódromo é uma falácia (é uma viela pequena e feia). Ainda no tour, nos separamos em dois grupos para visitar o Pão de Açúcar e um deles não conseguiu fazer a visita. Cinco colegas decidiram ir no último dia de manhã (que fez sol, lembram?), antes de pegar o avião e, pra isso, marcaram a visita bem cedinho. É óbvio, o guia chegou muito atrasado, quando eles já deviam estar indo para o aeroporto, e com um carro de quatro lugares para levar cinco pessoas. Até agora não sei como conseguiram pegar o avião. Suponho que tenham construído uma arca e negligenciado os pares de animais.

Eu e um colega de laboratório tínhamos o avião marcado para a mesma manhã, mas mais cedo. Assim, decidimos fazer essa parte do tour na tarde anterior, com chuva e tudo. E sem guia. Pelo menos nós conseguimos fazer o passeio, o que nos leva a crer que a viagem não poderia ter sido pior se tivesse sido planejada para tal, já que nós dois, que fizemos o passeio pendurados numa caixinha de ferro e vidro muitos metros acima do mar, somos os únicos do grupo que tem medo de altura.

Fomos nós com uma máquina fotográfica de um colega emprestada e lá, com os bilhetes na mão, pensei "vamos tirar as fotos aqui enquanto nossos rostos não estão contorcidos de medo". Prestes a entrar no bondinho, tentei tirar uma foto do colega. A máquina estava em modo vídeo.
Botei para o modo foto e tirei uma foto dos meus pés, para ajustar o flash. A máquina estragou logo depois. Resultado da visita ao Pão de Açúcar: um vídeo da nuca do meu colega e uma foto, escura, dos meus pés. Sem contar que esse colega perdeu o ticket de embarque no bondinho e, se não fosse um gaúcho que trabalha num café no topo do morro que descia conosco, teria que descer pela escada.

A melhor parte da viagem teria sido voltar pra casa, se não fosse meu companheiro de viagem me acordado a cada quinze minutos gritando 'o avião vai cair!', em vista do meu já mencionado problema de medo de altura. O companheiro em questão, claro, sendo meu orientador no laboratório.

Leão

Tem um gato que passa as noites numa loja, aqui em Copacabana. Fecha a loja, baixam uma grade (que tem uma tela de segurança pra proteger e impedir o gato de sair) e deixam o gato lá. Acostumei há muito tempo a passar por ali assoviando, pois o gato vem até a grade pra receber carinho. Uma noite dessas passou uma senhora, com sacolas de mercado e me disse 'o nome dele é Leão'. Não sei se ela sabia mesmo ou se só chutou, mas como o gato é amarelo assumi que era um nome razoável. Chamo ele de Leão até hoje.

-

Estava andando na rua a passos largos, sem pressa e só pelo costume de andar apressado, e ultrapassei um grupo de turistas. Eles conversavam entre si, gritavam, descontraídos.

Assim que eu passei por eles estava em frente à loja do Leão. Parei, assoviei e lá veio ele, saltitante. Os gringos acharam o máximo. Não sei bem de onde vinham, mas expressaram surpresa em no mínimo umas doze línguas diferentes.

Depois de uns sessenta segundos de observação e suspiros por parte dos turistas, fizeram um daqueles momentos raros de silêncio de grupo. Bem nessa hora, virei e disse:

- O nome dele é Leão.

E saí noite afora, deixando os turistas a mimosear o Leão, seguro de que pra sempre se lembrarão de mim em diversas partes do mundo como algum tipo de Mestre das Bestas de Copacabana.

O clube da vingança

- Bem vindos à reunião semanal do Clube da Vingança. Antes de começarmos...
- Eu quero fazer um discurso!
- Não, agora não. Só depois da janta.
- Por que não?
- Porque é contra as regras do Clube. A essa altura você realmente já devia saber disso.

Todos riram. Humilhado, jurou destruí-los.

Anos depois, enquanto revelava a todos (no clímax dramático) que tinha sido, secretamente, um traidor e o responsável pela decadência do Clube, concordaram que se tratava de uma ótima exposição e o elegeram presidente em votação unânime entre os poucos sobreviventes.


Poesia III: O eMORCEGO

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, à noite, ele entra
na Internet

Mensageiro

Sentado na beira extrema do trono, o Imperador tamborilava os dedos na perna. A mensagem chegaria a qualquer momento.

Quando as portas do salão se abriram, o Imperador desceu tão rápido os degraus que elevavam o trono que quase tropeçou no próprio manto, o que com certeza significaria o fim abrupto do seu governo por motivo: pescoço quebrado.

Entrando no salão, dois guardas imperiais carregavam, um de cada lado, um homem mais morto do que vivo. Um olho completamente fechado, coberto de sangue, alguns pedaços enegrecidos (talvez queimados?) e uma perna numa posição impossível.

- Ele está vivo? - perguntou o Imperador, disparando na direção dos recém chegados enquanto todos os nobres, serviçais e outros presentes abriam passagem - Está morto? Relatou a mensagem a alguém!? 

- Não, majestade. Está vivo, mas ... - disse o guarda, interrompido pelos berros do Imperador : acordem este homem! 

O médico da corte foi chamado enquanto o Imperador já chacoalhava o mensageiro, como que tentando arrancar a mensagem à força. Gritava perguntas para o quase-morto: qual é a mensagem? A batalha foi vencida? Os bárbaros recuam? Meu filho está vivo?

O mensageiro por fim foi despertado (e só muito pouco) por uma combinação de tratamento médico, sentido de urgência e balde d'água. 

O silêncio era absoluto. Do mais influente dos nobres ao mais humilde dos camponeses, o destino de todos dependia do conteúdo daquela mensagem. O médico aproximou o ouvido da boca do mensageiro, que sussurrou:

- Mensagem ao Imperador - tosse, sangue -, de seu filho, general e herdeiro...

- Sim!? Sim!?

- Mas primeiro - mais tosse - uma palavra de nossos patrocinadores...

E morreu. E tudo que sobrou do Império, arrastado pra fora da História pela guerra, fome, praga e sofrimento humano, foi o sentimento de que nada de bom pode sair dessas propagandas obrigatórias no começo dos vídeos do YouTube.

O Grande Khan

Encontrava-se no leito de morte o Grande Khan. Lá, deitado, invocou o seu direito ancestral de líder moribundo: ter todos os últimos desejos satisfeitos.


- Pirueta.
- Quê? - o conselheiro, com o ouvido quase colado à barba trançada do Grande Khan, queria saber se ouviu direito - Pode repetir?
- Quero que façam uma graça qualquer. Não precisa ser uma pirueta.
- Uma graça? Quem?
- Qualquer graça, oras. Alguém faz, todo mundo, não me importa.

Ninguém questionou, é o direito do líder. Estranho, mas direito. Também fazia parte dos costumes ancestrais, afinal, que o líder deixasse toda sua herança para alguém próximo, na hora da sua morte. O que é uma graça por um império?

Eis que uma verdadeira e literal horda de guerreiros realizou as mais diversas proezas artísticas e pitorescas buscando a aprovação derradeira do Grande Khan. Imitações, música, demonstrações de habilidade. Um dos filhos do Grande Khan, que também era seu general, capturou e decapitou setecentos inimigos. Um dos guerreiros demonstrou como se corta um cavalo ao meio. Outro, ateou fogo ao próprio corpo e, ainda em chamas, acertou uma flechada em uma águia em pleno voo.

Então, depois de diversos dias agonizando entre risadas e aplausos, o Grande Khan morreu apontando como seu legítimo sucessor e herdeiro o primeiro que de fato fez uma pirueta.

Alugando um apartamento no Rio de Janeiro

- Oi, eu estou ligando pra saber de um apartamento anunciado no site...
- Ah, esse não tá mais vago, não.
- Como assim? Eu nem disse qual -
- Esse também não.
- Ahn?
- Nenhum do site, senhor. Foram todos alugados. Tem um aqui que acabou de entrar e o menino não botou no site, fica na mesma área.
- Que área?
- Nessa área aí que o senhor quer.
- Tijuca?
- É. Mas é pior.
- Pior?
- O apartamento, é pior. Feio, com mofo. E é mais caro.
- É pior e mais caro?
- É. Só um momento - ih, menino, nem sabe. Foi alugado. Tem outro aqui, mas é ainda pior e mais caro.
- Poxa. É muito ruim?
- É. E não entregamos chave pra visita.
- Como assim?
- Pra visitar o apartamento tem que ser no dia marcado, o corretor vai estar lá mostrando pra umas vinte pessoas.
- Tem tantos interessados assim?
- Agora já são trinta. Até o dia devem ser duzentos.
- Que dia é a visita?
- Tem duas vezes por semana, das catorze até as quinze horas.
- Só no meio da tarde?
- É. Quarta ou sexta, o dia que ficar melhor pro senhor.
- Quarta...
- Então não tem mais quarta. Só sexta.
- Poxa. Não como fazer na primeira hora da manhã? Ou última da tarde?
- Tem, senhor, tem como fazer sim. Mas não vamos. O senhor tem fiador?
- Ah, é só com fiador? Não tem seguro-fiança? Depósito adiantado?
- Não, só fiador. O fiador tem que comprovar a renda sete vezes maior que o aluguel, ser casado, católico e possuir três ou mais imóveis no Rio de Janeiro.
- Nossa.. tá difícil, né?
- Se não quiser tem quem queira, senhor. Imagina na copa.

Sinal de vida

Um professor um dia me contou um causo, da época em que ele mesmo era aluno. Talvez eu mude alguns detalhes, não lembro com total clareza. Mas o grosso da história é esse mesmo, e parece que é verídica.

Meu professor, então aluno, fazia engenharia e - em meio aos Cálculos - decidiu que precisava adiantar umas matérias. Conversando com os veteranos descobriu que um certo professor, que ministraria duas disciplinas naquele semestre, tinha fama de passar todo mundo. Todo mundo mesmo.

Matriculou-se em ambas as matérias e, se bem lembro, foi na primeira aula da primeira delas. Ouviu do próprio professor: "não quer, não vem. Eu passo todo mundo". E decidiu que não queria, e não iria.

Esperava passar. Fim do semestre, chegam as notas. Passou, em uma. Na outra, rodou. Ficou indignado (tema para debate: com razão?). Foi à sala do tal professor e confrontou - "Como me rodou na matéria, se me disse que passava todo mundo?".

"Veja bem", respondeu o professor, "fui forçado. Várias pessoas nunca apareceram. Quem tinha alguma presença, passou. Perguntei aos alunos se conheciam os faltantes, todos os que eram conhecidos de alguém passaram. Quem nunca foi e não era conhecido por ninguém, tive que rodar".

O motivo no final das contas foi o seguinte: a reitoria estava de olho. Tinha que tomar cuidado a partir de agora. Aconteceu que no semestre anterior um aluno morreu ainda bem no começo da matéria e passou com oito.

Então era isso, agora não passava mais literalmente todo mundo, havia um critério. Precisava no mínimo dar sinal de vida.

Pedindo Pizza II

- Quantos sabores na pizza grande?
- Até quatro. Aqui está o cardápio.

Discutimos ligeiramente sobre as opções e (estudantes em vida de república) escolhemos os sabores que implicam em maior quantidade de comida pelo mesmo preço. Só haviam três dignos de nota: calabresa, portuguesa e romana. Decidimos o seguinte:
- Queremos a pizza só com três sabores, metade calabresa, um quarto portuguesa e um quarto romana.

A atendente ficou momentaneamente confusa.
- Ahn... como?
- Em vez de quatro sabores, queremos portuguesa, romana e uma metade inteira calabresa.
- Não dá.

Estranhamos a resposta negativa absoluta.
- Como assim?
- Não dá, a pizza deve ter dois sabores ou quatro, não fazemos com três.
- Mas... - um de nós começa, já pretendendo argumentar, quando outro tem uma boa ideia e o interrompe.
- Calma. Ok, - diz para a atendente - então anota aí: calabresa.
- Calabreeeeesa... - repeta ela, vagarosamente, enquanto anota.
- Portuguesa.
- Portugueeeeesa... - ainda anotando.
- Calabresa. - o 'de novo' ficou implícito. Trocamos olhares silenciosos entre nós. Expectativa: ela vai perceber o plano?
- Calabreeeesa... - anota ela, alheia, e nosso encarregado completa o pedido.
- E romana.
- Romana. Ok. Podem aguardar, fica pronta em quinze minutos.

O cozinheiro deve ter estranhado a repetição de sabor, mas ordens são ordens: quando a pizza chegou, constatamos que os dois quartos calabresa não compunham uma metade contígua. Estavam dispostos opostamente.

Exatamente como pedimos.

Sósias

Cena externa. Piscina. HOMEM gordo, meia idade, descansando. SECRETÁRIO aproxima-se com agenda nas mãos.
SECRETÁRIO: Senhor, vim lembrá-lo do compromisso às quatorze horas.
HOMEM: - visivelmente incomodado - Ai, saco. De que adianta ser investidor milionário se eu tenho que ficar me incomodando o tempo todo? O que é esse compromisso, é alguma reunião?
SECRETÁRIO: É um discurso de formatura para os universitários da...
HOMEM: - interrompendo - Ah, nem pensar. Chame o sósia. É pra isso que eu o contratei.
SECRETÁRIO: Como assim, senhor? O senhor é o sósia.

Câmera abre o plano, revelando um OUTRO HOMEM, idêntico ao primeiro, dormindo em uma cadeira de praia.
HOMEM: - confuso - É mesmo? Eu lembro distintamente de ser um investidor rico.
SECRETÁRIO: Não é o caso, senhor. Devo confirmar o compromisso?
HOMEM: Não, espera aí. Se eu sou o sósia, quem é aquele cara?

Câmera abre novamente o plano, revelando um TERCEIRO HOMEM, idêntico aos demais, vestido em traje social completo, segurando maleta.
TERCEIRO HOMEM: - entusiasmado - Estou pronto para o trabalho, senhor!
SECRETÁRIO:  - para o TERCEIRO HOMEM - Quem é você?
TERCEIRO HOMEM: Sou o novo sósia.
SECRETÁRIO: Como assim? Quem lhe contratou?
TERCEIRO HOMEM: Ué, ele - apontando para OUTRO HOMEM.

OUTRO HOMEM: - acordando - ahn? Eu? Preciso ir a algum compromisso?
SECRETÁRIO: Não, senhor, o seu novo sósia se encarregará disso.
OUTRO HOMEM: - confuso - Como assim? Há um novo sósia? Fui demitido?
SECRETÁRIO: Demitido? O senhor é o sósia?
HOMEM: Espera, então eu realmente sou um investido rico?
SECRETÁRIO: - mais confuso - Você contratou esse homem? - referindo-se ao TERCEIRO HOMEM.
HOMEM: Acho que não.
SECRETÁRIO: Então você deve ser o sósia.

Câmera abre o plano, revelando um QUARTO HOMEM, idêntico aos demais, com aparência jovial, em trajes mais simples, segurando folhas de papel.
QUARTO HOMEM: É aqui que entrego o currículo para o cargo de sósia?
OUTRO HOMEM: Se parece muito comigo. Está contratado. Ele - aponta para HOMEM - vai acertar o detalhes.
SECRETÁRIO: Quem é esse homem? Quem o chamou aqui?
QUARTO HOMEM: Segundo o anúncio, sou um investido rico. - deitando em cadeira de praia.
TERCEIRO HOMEM: Eu sou um investidor rico.
OUTRO HOMEM: Eu sou tão rico que já estou dormindo. - vira para o lado e dorme.
SECRETÁRIO: - assolado - Eu não aguento mais esse emprego. Isso está acabando comigo.
HOMEM: Que é isso, homem. Acalme-se. Você não acabou de tirar férias? Eu não havia contratado um sósia para você?

Câmera abre para revelar um ÚLTIMO HOMEM, idêntico ao SECRETÁRIO, em uma cadeira de praia.
ÚLTIMO HOMEM: - acordando - Eu sou o secretário? Achei que eu era o investidor rico.

Mais d'O Mundo dos Negócios

- Ok, pessoal, o tempo acabou. Larguem as canetas. Larguem - Marcos, largue a caneta. Isso, vamos lá, passem os papéis pra cá.

Recolhe todos os papéis. Os funcionários trocam olhares, tamborilam os dedos na mesa, forçam a língua contra o interior da bochecha. Muito nervosismo no ar.

- Então vamos lá, vamos ver o que a equipe tem a dizer. E a primeira sugestão é... "von"- não, "vender", isso, acho que é "vender", que letra horrível! Não é a toa que os clientes tem reclamado de  que não conseguem entender as ordens de compra emitidas. Deixe-me ver, "vender min-es"? "Menes"? Ah sim, "menos". Quê? - ajeita o óculos, traz o papel para mais perto do rosto - " Vender menos"? Quem foi que escreveu isso?

-Ah, senhor, acho que o anonimato é parte do exercício, senhor. Quer dizer, acho que -

- Cale a boca, Marcos. Eu sei. Eu só quero saber quem é o gênio que acha que 'vender menos' é uma opinião válida de melhoramento para a produtividade da empresa. Se pelo menos estivessémos falando de lucro a frase faria sentido, apesar de ser exatamente o contrário do que a lógica indica como o óbvio!

- Ah, veja bem senhor, foram só alguns minutos pra escrever, talvez a frase fosse mais longa, não tenha dado tempo de  -

- Marcos, calado! - a tensão na sala parece diminuir entre os demais empregados conforme Marcos se torna o centro das atenções do chefe, agora com suor na testa apesar do ar condicionado ligado no máximo - foram três minutos, acho que é tempo suficiente para acabar uma sentença de mais de três palavras!

- Desculpe, senhor. Tem razão, senhor. Eu só acho que muitos aqui não escrevem à mão há muito tempo, sabe como é, o computador -

- Chega, Marcos, chega. Vou fingir que não sei que foi você quem escreveu isso e vou lhe dar um chance - só uma chance! - de dar outra sugestão, agora, que melhore a produtividade da empresa. Vamos lá, trinta segundos. Vamos, estou contando, vinte e cinco, vinte e quatro, é bom que seja uma idéia útil, se não boto você no olho da rua! Vinte, dezenove -

- Caligrafia!

- ... o quê?

- Aulas de caligrafia para toda a equipe!

E foi assim que os clientes pararam de reclamar, a empresa resolveu o seu único problema de comunicação e Marcos foi continuamente promovido. Tornou-se presidente da empresa no final do mesmo ano apesar de ter furado a entrada na tal reunião, sendo apenas um office-boy de outra empresa sediada no mesmo prédio.

Entrevista II

- Devo dizer que seu currículo é impressionante.
- Obrigado.
- Quero dizer, não apenas seu currículo. Suas referências são fantásticas. Bom demais para ser verdade.
- Obrigado. É verdade.
- Sei que é verdade, é só uma expressão, não me leve a mal. O que quero dizer é que você é o candidato perfeito, no momento exato em que precisamos. Aceita um café?
- Aceito, obrigado.
- Como eu ia dizendo, parece que você jamais comete erros. É o que precisamos. O momento é crítico, o menor erro pode levar o grupo ao chão. Precisamos de alguém perfeito, absolutamente infalível e...
- Hum.
- Desculpe, você colocou sal no próprio café?
- ... não.
- Mas... esse é o saleiro.
- Ah, sim, sal. Claro. Botei. Gosto, prefiro sal. - um longo gole.
- ... certo. Enfim, é meu prazer convidá-lo a juntar-se a nós como gerente de operações internacionais!
- Obrigado, obrigado. O prazer é meu.
Aperto de mãos.

Você está aí achando que isso ia dar em desgraça, mas a empresa prosperou como nunca. As ações subiram, os investidores lucraram, os empregados receberam generosos bônus e o capitalismo enfim resolveu o problema da pobreza no mundo. Não, brincadeira, duas semanas depois a empresa foi à falência e os sócios - quase todos - se suicidaram. Acontece que o tal candidato baixou um currículo da internet e era semi-analfabeto, conseguiu roubar muito pouco e fugiu para uma ilha deserta com um homossexual.

Entrevista

Diz um amigo que um amigo de um amigo seu (portanto é um disse-que-disse) participou de entrevista de emprego. Ofereceram a ele as seguintes opções de 'pessoa que levaria para uma ilha deserta': um engenheiro, um médico, um padre e um homossexual (assim mesmo, sem profissão, a profissão dele é ser homossexual). Ele escolheu o médico, por motivos práticos, e não foi chamado pra trabalhar, por ser homofóbico.

Uma boa história com um péssimo título

- Você devia juntar todos esses causos e fazer um livro.
- Eu fiz. Digo, não contei? Tô escrevendo um livro.
- Qual?
- "Uma boa história com um péssimo título".
- Legal. Bom título.
- Obrigado.
- Sabe o que eu concluo disso? Deve ser uma péssima história.
- É, são vários diálogos anônimos, sem cenário, sem continuidade e sem descrição dos envolvidos. Quando dá coloco uma ou outra auto-referência, pra dar ilusão de profundidade.

A utilidade das Listas

A vida é impossível sem as listas. Alguns fazem somente listas mentais, ou até mesmo virtuais, online, mas essas nem de longe são tão eficientes, confiáves ou poluentes como as físicas, no bom e velho papel. Destruo uma pequena floresta por ano só anotando o que tenho que fazer no dia seguinte.

Às vezes anoto 'acordar, trabalhar, dormir' em uma folha A4, só na esperança de que essa folha-a-mais agrave o efeito estufa. Porque deus me livre de ter na consciência que não fiz nada para impedir que os mendigos morram de frio.

Tarefas Domésticas

Levando o lixo pra baixo, Luíza não sabe se papel higiênico vai no reciclável. Perguntei "é seco ou molhado?". Ela respondeu: "depende".

Custo Brasil

Os melhores perfumes vêm nos menores frascos, mas o frete pro Brasil custa no mínimo 80 dólares.

Política

Eis minha proposta: legalizar a venda de maconha mas criminalizar o uso, exceto em caso de estupro.

Histórias

Ser brasileiro e estudar História é chato, nunca se sabe pra quem torcer.

A Incrível Vida na Cidade Grande

Viveu a vida toda numa cidade de interior, uma cidadezinha bem pequena, bem previsível e pacata por inteiro. Conhecia todos os vizinhos e participava de um grupo de baralho mais antigo que a TV em cores, esse tipo de coisa. De repente, por sei lá qual guinada do destino, se viu preparando as malas pra passar um bom tempo na Cidade Grande.

- Vão te roubar tudo! - foi a primeira coisa que diversas de suas amigas também velhinhas também do interior disseram. Vão te enganar, cuidado com o golpe do bilhete, vê se não cai na história de quem pede ajuda pra remédio, pra passagem. "Lá não é que nem aqui" disse, provavelmente, a amiga com a qual tentou arranjar casório entre os herdeiros, "onde todo mundo se conhece, vai todo mundo perceber que veio de fora".

Chegou na cidade grande amedrontada, portando carteira falsa e escondendo os documentos na meia, dividindo o dinheiro entre os vários bolsos e outras técnicas caipiras de lidar com o perigo. Chegou a pedir pro neto botar um GPS - um "aparelhinho de rastrear", na verdade - na mala, caso a roubalheira começasse já na rodoviária. O guri jogou um aparelho qualquer quebrado lá dentro só pra apaziguar a velha. "Consegue ver onde tá minha mala?", ela pediu pra fazer o teste. "Ainda não, vó, só vou ligar quando a senhora for, pra economizar a bateria".

E foi desnecessário, mesmo. A rodoviária não tinha batedor de carteiras, ninguém tentou vender monumento histórico, ninguém se ofereceu pra carregar as malas e com elas sair correndo. O primeiro dia acabou sem desastres. O segundo, a primeira semana, também. Já mandou avisar as comadres que estava se virando e que talvez a Cidade Grande nem fosse tudo aquilo. Na segunda semana já se aventurou a ir ao mercado. Depois, ao shopping e "Manda avisar todo mundo no clube que eu já vou ao cinema sozinha!". Não demorou pra descobrir onde pega o ônibus e em pouco tempo era ela que dava informações para os mais desinformados. "Sim, meu filho, é seguindo reto aqui e não esqueça de dobrar quando chegar na avenida do parque!". 

Eis que um dia perdeu a hora e precisou pegar um ônibus num lugar desconhecido - sua linha costumeira cessava cedo no fim de semana. Já era escuro. As pessoas já não pareciam tão bem intencionadas, mas ela se recusou a ceder ao antigo medo. Pegou o primeiro ônibus, "Esse pára perto do shopping?". Parava, sim. Olha só, já estou a caminho de casa.

Mas eis que embarca um rapaz encapuzado, de fones de ouvido, caminhado gingado. A própria imagem do meliante, o tipo de rapaz que na sua cidade todo mundo comenta que namora com aquela guria que sempre soube que não era boa coisa. Sentou ao lado dela, com vários outros bancos ainda disponíveis. Calma, não há de ser nada. Tentou desligar, apreciar a viagem, prestar atenção no caminho pra não perder o ponto; e conseguiu. Distraída, lhe ocorreu em checar as horas -  e foi aí que percebeu o furto.

Seu relógio de pulso sumira. Não estava mais lá, ainda podia sentir seu peso, o aperto da pulseira, mas ele não estava mais lá. Olhou assustada para o rapaz sentado ao seu lado e logo se arrependeu do movimento brusco. Desviou o olhar, "Ai meu Deus, e agora, se eu reclamo é capaz de me bater, esse pessoal rouba tudo pra comprar droga, me avisaram que era assim aqui na Cidade Grande". Tinha quase certeza que o vira colocar a mão no bolso do casaco abruptamente, com certeza escondendo algo. O que mais lhe ocupava os pensamentos, no entanto, não era a falta do relógio. Tinha sido caro, mas compra-se outro...

O problema era o orgulho. Como poderia voltar pra casa e encarar toda aquela gente que já a considerava uma vencedora destemida por não ser uma vítima da metrópole? Se pelo menos não tivesse contado vantagem de conseguir ir ao cinema sozinha... Não, não era só isso. O problema era que se sentira bem tomando conta de si mesma pela primeira vez na vida, talvez, e queria - precisava - continuar acreditando que era capaz de fazer isso pra sempre.

E aí tomou uma daquelas decisões que moldam a vida do sujeito. Uma daquelas que entram no resumo da biografia e acaba sendo utilizada para descrever o caráter do indivíduo para o resto de sua vida e além: decidiu que não seria a vítima. 

Abriu a bolsa com movimentos mínimos. Tirou lá de dentro a escova de cabelo, segurando-a do modo inverso. Encostou o cabo nas costelas do rapaz com uma violência medida e graciosa. Ele levantou o braço e tentou ver o que era aquilo que lhe pressionava, apesar da ordem instantânea da velhinha: "Olha pra frente!". Ele o fez, confuso, sem ter visto nada pois, mesmo sem querer, ela cobrira a visão dele com o braço oposto. Um movimento de assassino profissional, feito no puro improviso. 

Já assustado e confuso, o rapaz ouviu as ordens seguintes: "Coloca o relógio na bolsa e desce no próximo ponto". Exclamou um quê, mas uma pontada mais forte calculada nas costelas o calou. Ela sentiu o rapaz movendo as mãos dentro dos bolsos, lhe alcançou a bolsa aberta, "Anda, vai logo!". Ele depositou o relógio lá dentro e ativou o sinal de parada. Saiu sem olhar pra trás e desceu do ônibus quando a porta abriu.

A velha quase não conseguia segurar a felicidade. Queria gritar, "Sou uma heróina! Posso cuidar de mim mesma! Vou ser o motivo de orgulho e assunto da conversa até a o final da quaresma!". Desnecessário dizer que não foi com o mesmo espírito positivo que lidou com o fato de encontrar em sua bolsa um relógio colorido, metálico e grande, de estilo hip-hop - bem diferente do seu, fino, leve, bem acabado e ainda bem guardado dentro da mala, no seu quarto, ao lado do falso GPS.


Roteiro II

Um malfeitor careca, de bigodes ou com algum traço físico repugnante qualquer treina um macaco, cachorro, porco, gato, golfinho, foca ou gambá para praticar crimes. O animal, no entanto, é de boa natureza e foge do dono depois de uma sequência de maus tratos, sendo então encontrado por uma criança pré-adolescente norte-americana que enfrenta problemas pessoais na escola, com o divórcio dos pais ou com a rejeição do irmão mais velho.

Caoticamente, a princípio, mas depois naturalmente, os dois vivem diversas aventuras nas quais as habilidades criminais do macaco, cachorro, porco, gato, golfinho, foca ou gambá e a participação de um amigo coadjuvante são essenciais para o sucesso. Quando a criança protagonista aprende finalmente a lidar com seus problemas, tornando-se uma pessoa bem resolvida e mentalmente saudável, surge novamente o vilão malfeitor.

Ele então rapta o macaco, cachorro, porco, gato, golfinho, foca ou gambá e o força a praticar novos crimes, mas o animal se nega (agora mais decididamente) e humoristicamente sabota o roubo; causando no dono várias contusões e queimaduras leves (além da aderência de penas em oléo que cobre o corpo do bandido). Não demora até que a polícia consiga prendê-lo (o malfeitor). O animal é então encontrado pela criança protagonista que entrementes organizara uma busca pela vizinhança com tochas e lanternas e mutirão de pessoas gritando "macaco" (ou "cachorro", "porco", "gato", "golfinho", "foca", "gambá") - busca que se prova inútil quando uma súbita lembrança de um ensinamento involuntário do animal faz a criança encontrá-lo instantaneamente.

De alguma forma o vilão, mesmo tendo sido pego, consegue reivindicar legalmente a posse do animal. Em meio ao julgamento de assassinatos, latrocínios, incêndios criminosos e etc. é julgado o caso da posse do macaco, cachorro, porco, gato, golfinho, foca ou gambá. Invariavelmente o juiz decide que o animal será chamado pelas duas partes concorrentes e que aquele que atraí-lo será seu legítimo dono. O vilão utiliza pasta de amendoim (independente do tipo de animal em questão, todos adoram pasta de amendoim) para sabotar o processo, mas mesmo assim o amor vence e a criança comemora a posse do amiguinho com os pais ausentes agora participantes, o irmão mais velho que agora é figura exemplo, o amigo coadjuvante que agora é namorado(a) e o povo da vizinhança que participou do mutirão. Por alguma razão qualquer, o vilão é carregado para a prisão por dois policiais (enquanto esperneia e grita que "não é justo" e que "isso não vai ficar assim", para justificar uma possível sequência).

Em meio a frases de efeito e lição de moral, todos descobrem que a existência humana é uma simulação computadorizada e que o filme, na verdade, trata-se de Matrix IV.

Stress III

Longa viagem de carro. O motorista concentrado no trânsito na rodovia e a mulher, no carona, diz:
- O futebol, por sua origem.
- Quê?
- O futebol, por sua origem. Seis letras.
- Ah. Tem alguma já?
- A segunda é erre e termina com ão.
- Bretão.
- Como?
- Bre-tão.
- Ah... entendi.

Mas não entendeu. Acho que nem imaginava que o esporte é inglês e, portanto, vem da "Bretanha". Logo estava reclamando:
- Não tá fechando... aqui deveria ser um bê!
- Onde?
- Aqui na primeira, onde me mandou escrever "pretão"!

Depois de risadas e explicações, ficamos sabendo que ela achou que o futebol era um esporte pretão por causa dos muitos jogadores negros.

Irritada

Barulho, na cozinha desocupada, da louça empilhada caindo por toda a pia. Na sala, ela me pergunta:
- Por que as coisas mal-ajeitadas caem só um tempo depois?
- Porque é assim que as coisas são, ué.
- Elas deslizam uma sobre as outras até cair?
- Sim, acho...
- Que saco! - visivelmente irritada - Bem que podiam cair na hora!

É, seria bem mais prático.

Estranhezas II

- Com licença, posso passar na sua frente?
- Óbvio.
- Obrigado, com licença.
- Óbvio que não. Olha seu carrinho, só tem cachaça.
- E daí? Quem bebe não pode ter pressa?
- Pode, mas eu também tenho.
- Só vou levar duas garrafas. Você tem pelo menos uns vinte pacotes aí, vai demorar muito mais pra passar no caixa, deixa eu ir na sua frente?
- Não, meu Doritos é mais importante que sua bebida.
- E se eu levar só uma garrafa, posso passar na frente?
- Nunca!
- Com licença, posso ajudá-los?
- Sim, esse bêbado quer passar na minha frente.
- Eu? Eu não sou bêbado.
- Senhor?
- Ele, sim!
- Eu não, mentira, eu só pedi educamente se ele me deixaria passar porque só tenho um item e ele tem uns trinta. Aqui não é a fila do caixa rápido?
- Senhor, realmente, o senhor excedeu o limite de quinze itens. Queira se retirar da fila, por favor.
- Nunca! Olha aqui, pega o resto, dez, doze, catorze... quinze. Pronto. Agora são só quinze no meu carrinho e os outros vão pra cestinha dele.
- Mas eu não quero comprar esse salgadinho...
- Senhor, não jogue os produtos nas cestas dos outros clientes. Saia da fila.
- Ninguém te perguntou se quer ou não quer!
- Acho que estou passando um pouco mal. Esse lugar está escuro ou é impressão minha?
- Senhor, vou ter que pedir para que o senhor se retire.
- Nunca!
- E mal ventilado. Preciso de um gole.
- Por favor, senhor, saia agora. Alô, segurança, situação na fila do caixa vinte e três.
- Não saio daqui sem meu Doritos! Como tudo antes de me jogar pra fora!
- Ô coisa boa, essa é das fortes!
- Os senhores não podem abrir os produtos na loja, por favor. Segurança!
- Ah, como eu adoro Doritos! Dá um gole?
- Troco por um salgadinho.

Roteiro

Personagem principal: John McJohn, um homem branco de classe média em Nova Iorque que dirige um Taxi e luta contra a ganância das grandes corporações. Ele é bombeiro e advogado e tem um filho criança de um casamento que não deu certo.

Seu melhor amigo Jamahl é um policial negro, malandro, com "streetsmarts", afastado por ser efetivo mas não convencional e sempre causar danos a propriedade pública, deixando seus superiores encrencados com o prefeito. A namorada de John McJohn é Sissy Le Boom Boom; uma francesa intelectual que adora violão espanhol e conhece todos os tipos de vinho do mundo. Só fala frases de intelectuais famosos, usa pouca roupa e é claramente o estereótipo de mulher idealizada do diretor do filme.

Todo o lado paterno da família de McJohn, os McJohns, é composto por vampiros (alguns bons, outros maus); todo o lado materno, os Jeffersons-Ottawas, por índios norte-americanos que são lobisomens. Todos os irmãos de McJohn são super-heróis. Todos os vizinhos no seu bairro são supervilões. Seu animal de estimação é um animal falante com comportamento antropomórfico engraçado e levemente repugnante (ele bebe, peida, fuma maconha e faz caretas); apesar de sempre ensinar lições de vida valiosas para as crianças da vizinhança (especialmente aquelas com problemas familiares causados pela ausência de um dos pais) através da prática de variados esportes.

Um dia, McJohn ganha poderes por ter entrado em contato com insetos que saíram de um objeto-asteróide, enviado do espaço por uma raça de aliens (do futuro de outra dimensão onde as máquinas dominaram os humanos) que já estiveram na Terra (e provavelmente são responsáveis por tudo que o Homo sapiens já produziu): ele passa a ler mentes. Só consegue, no entanto, ler as mentes de: pessoas que trocaram de corpos com crianças para aprender uma lição de vida; psicóticos assassinos seriais que estão confinados em um local com vítimas em potencial; e mulheres jornalistas que, apesar da independência e atitude, são claramente femininas e (no fundo) românticas, e acabam descobrindo que aquele amigo bem educado, inteligente, rico e bonito que nunca tinham percebido antes é na verdade o amor de sua vida.

Quando o mal absoluto e o diabo raptam a filha do presidente dos EUA que estava em um acampamento de verão no qual diversos adolescentes descobrem a sexualidade e se vingam dos bullies e professores autoritários do colégio que proibiram o rock n' roll, McJohn tem de buscar algum tipo de ajuda de natureza pessoal e revelar um grande segredo sobre seu passado. No final, ele derrota os vilões e resolve todos os problemas em um auto-sacrifício heróico. Mas volta à vida (por alguma razão que foi tornada possível por alguma exposição anterior no filme) e tudo acaba bem e possibilitando uma sequência e o estabelecimento de uma franquia.

Para o público, o final é ambíguo: é impossível saber se tudo aconteceu como uma metáfora sobre a economia e política norte americana ou se foi tudo apenas um sonho onde todos estão mortos. E claro,  todo o filme é simbólico com tema sexual, racista ou religioso.

Todos os homens do mundo

Já há algum tempo morando com a namorada, perde-se um pouco a perspectiva das coisas. Mas hoje ela foi viajar, e só volta daqui há uma semana. Vou aproveitar pra fazer tudo que não faço quando ela está aqui.

Primeiro, vou manter tudo limpo e arrumado, sem me preocupar em fazer pose de bagunceiro e bad-boy da higiene residencial. É difícil, mas tenho convencido esse tempo todo, que sou bagunceiro, atrapalhado, jogador de meia pelos cantos e tantas outras coisas que vão contra minha própria natureza. Faço, repito, só pra parecer que não me importo, que sou descolado com a vida, que pra quê limpar se vou sujar depois? Então, aproveitando que ela não está, vou finalmente poder ser o verdadeiro fraco eu e lavar o chão com escovinha, usando detergente suficiente pra descolorir os joelhos (como tanto adoro fazer). Ah, como adoro esfregar bem os cantos!

Segundo, vou cozinhar e fazer todas as refeições do dia. Mais uma vez para impressioná-la, dessa vez com a eficiência energética do meu organismo, nunca tomo café da manhã e só janto porcaria. Agora que ela não está, vou aproveitar pra botar em dia aquele curso de culinária (que nunca ficou sabendo que fiz, porque quero parecer mais macho) e testar todas as minhas receitas novas. Nesse exato momento estou digitando com uma mão e acabando a polenta sobre cama de tomates e manjericão acompanhada por um pernil assado ao molho de cebola, tudo perfeitamente calculado para uma porção para duas pessoas, que pena que terei de comer sozinho. Já dizia o poeta: a boa cozinha não é egoísta. Só pra um não é gostoso. Mas fazer o quê? Pelo menos posso lavar toda a louça depois.

Por fim, vou dormir nos horários certos e não nos errados; tomar banho em silêncio e não compondo sinfonia de arroto; gastar meu dinheiro com coisas úteis para a casa e não em jogos ou no fim de semana; ir no médico se sentir alguma coisa em vez de dormir até sarar; pedir informações para encontrar o destino.

Como é bom um tempo só pra gente ser quem a gente é de verdade. Dá forças pra voltar a ser o cara que não limpa, não cozinha, não faz as refeições direito, não vai ao médico, não pede informação, toma banho cantando, compra mais entretenimento besta do que provisões necessárias, que dorme a manhã inteira, escuta música ruim sem fone e passa a madrugada acordado.

Enfim, pra ser como todos os homens - sim, mulheres, todos do mundo - fingem que são.

Rápida

Eu até poderia contar aquela história sobre meu pai tentando ensinar a estagiária a fazer cálculo de porcentagem simplificando cada vez mais os exemplos até perguntar 'quantos porcento dá dez partes de cem' e ela não conseguir responder... mas agora já contei.

Scooby Doo 2099

- ... e eu teria conseguido se não fossem esse cão robô e esses idosos intrometidos!

Mendigos da manhã

Fui com os amigos e colegas de república a um lugar bem hipster do Rio de Janeiro. Naquela mágica hora do dia em que está amanhecendo e o número de crimes com morte diminui reunimos o grupo para partir rumo às ressacas. Vamos rachar um táxi? Não, vamos a pé, quem sabe conseguimos comer alguma coisa no caminho? E conseguimos.

Um membro do grupo abordou um senhor que abria uma fruteira para os negócios do dia: tenho muita fome, quebra um galhão aí pra gente, me dá uma laranja? Ele deu. Ninguém nega, parece, comida para os desesperados que pedem educadamente. Em grupo. Às seis e trinta da manhã. Espera, disse meu amigo mendigo com iniciativa, tem como cortar pra gente? Sim, tinha. Podem ser duas laranjas? Somos vários e uma não chega.

Receber aquelas laranjas não só nos nutriu e forneceu material para um divertidíssimo jogo de tiro-ao-alvo com bagaço (com o alvo sendo uma agregada de um amigo, adquirida durante a noite) como também nos iluminou sobre as possibilidades da mendicância cedo-matutina. Partimos para a feira de rua (era no caminho, mesmo). Lá mendigamos um bom pedaço de mandioca; aproveitei o embalo e barganhei. Quanto é o quilo, seu moço? Só tenho dois pilas trocados, dá pra ser? E dava, levei com trinta porcento de desconto.

Mas eis que bateu a fome de verdade e paramos para comer um bauru, sanduíches e assemelhados. A fome é muita, prepara essa mandioca aqui pra gente, por favor? Ele não soube bem o que fazer e chamou o chefe. Até preparava, disse, mas demora muito pra ferver. Que pena, dissemos, mas será que não dá pra adiantar pelo menos uma porção de salada de frutas como cortesia? E deu, no final das contas.

Tudo é possível. Pra quem pede educamente, em grupo, às seis e trinta da manhã.

Tudo aconteceu já há alguns meses e, depois de entrar na geladeira naquela manhã, o tal quilo de mandioca nunca mais foi visto.

O Resgate do Soldado LAVATRON

Fui com os colegas de república à uma festa na Lapa. Na volta, já (bem cedo) de manhã, paramos ainda longe de casa para comer alguma coisa e ali, na sarjeta, estava uma máquina de lavar gigantesca e magnífica. Lavatron, como seria nomeado posteriormente. Meio arrebentado, um tanto enferrujado, todo quadradão e pesadísimo - lembrava uma daquelas geladeiras antiquíssimas que eram feitas pra nunca mais estragar.

Lavatron fora jogado fora para quem quisesse carregá-lo dar fim, supomos. Deliberamos e decidimos que seria uma ótima aquisição para a vida comunal na ReSaCa. Acho que ainda sob a empolgação de tê-lo encontrado, conseguimos levantá-lo sem muito drama. Atravessamos a avenida, assentamos Lavatron na entrada de uma lanchonete. Entramos e fizemos a refeição matutina clássica de quem volta da Lapa (com direito a larvinha na salada), montando guarda simbólica para evitar que alguém levasse embora nosso amigo Lavatron.

Colocamos os restos (a serem aproveitados depois) dentro dele, uma solução óbvia e higiênica para o problema de ter de carregar uma máquina de lavar gigantesca carregando comida simultaneamente.  Éramos quatro, e dividindo os muitos quilogramas de Lavatron igualmente entre nós ainda sobravam, com certeza, quilos o suficiente para mais um conjunto dos mesmos quatro. Os lucros imagináveis (a economia com lavanderia) eram muito altos, no entanto, para que desistíssemos. Era quadradão, difícil de carregar e cheio de partes que eram próprias para causar hematomas e arranhões, mas nem isso nos deteve, graças à aplicação da estratégia dos descansos.

São onipresentes nas calçadas de Copacabana os pequenos postes de ferro ou concreto colocados para evitar que os motoristas estacionem ou passem com os carros por ali, cada um com um metro de altura e todos separados por dois ou três metros entre si. Não sei como se chamam, mas naquele dia eram o 'descanso'. Dado que Lavatron pesava uma quantia ainda desconhecida entre cem e quatrocentos quilogramas (os testemunhos dos envolvidos divergem), conseguíamos com muito esforço carregá-lo de um descanso para o outro, e só. Sendo que estávamos distante de casa mais de um quilômetro, imagina-se que cada avanço de dois metros e meio em média não era motivo pra comemoração. Mas era.

Apesar dos danos estruturais infligidos a Lavatron e a nós mesmos, conseguimos avançar um bom pedaço. Tivemos de pedir ajuda a um pobre estudante que marchava em pleno sábado de manhã para uma prova de matemática. 'Ei, amigo, dá uma mão aqui'. 'Mas eu tô comendo um salgado, tomando um açaí...', disse ele. 'Não faz mal', respondemos, 'a gente espera'. Foi nesse dia que aprendi que as palavras mágicas pra pedir ajuda a um cariocas não são por favor e obrigado, como me ensinaram na pré-escola, mas 'quebra esse galhão pra gente aí'. Depois de receber a ajuda do infeliz 'voluntário' e mandá-lo seguir seu caminho (todo sujo e esfolado em direção a uma prova de geometria plana), conseguimos alugar a ajuda de um feirante para carregar Lavatron pelos últimos cem metros, usando uma engenhoca de carregar produtos que envolve um caixote, uma bicicleta e um feirante bem disposto a ganhar dez trocos.

Chegávamos ao final da jornada surrados, arranhados e cansados e a antecipação era enorme: será que Lavatron vai funcionar? Será que, mesmo que funcionasse antes, o dano estrutural que causamos a ele não tenha sido demais para o pobre coitado? Será que a coca-cola que deixamos dentro dele ainda tem gás depois desse chacoalho todo? A montagem de Lavatron foi fácil, era uma questão de encaixes forçados e de quebrar boa parte das conexões sensíveis até que ficassem penduradas o suficiente.

Conectamos Lavatron na tomada. Hora da verdade. Girou-se o botão e... nada. Não funcionou. Desespero. Tudo isso pra nada? Valeu a pena? Eis que alguém lembrou, antes da fúria em massa descambar para uma inevitável escolha de culpado e linchamento: 'troca a tomada, essa tá meio quebrada e os buracos tão um pouco apertados'. Trocamos. E funcionou! Tudo vale a pena quando a tomada não é pequena. Para testar se estava puxando água despejamos um pouco da coca-cola no tubo e tudo funcionou maravilhosamente bem.

Que alegria, Lavatron girando as partes que deviam girar e fazendo um barulho ensurdecedor como deveria fazer! Que alegria, o resgate do soldado Lavatron um sucesso, nossos braços machucados, arranhados e cortados, mas nossa missão cumprida!

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Ninguém nunca usou Lavatron. Ele ficou lá, instalado num canto, sem que ninguém se dignasse a comprar sabão em pó uma única vez, apesar de todos os apelos da empregada para que o fizéssemos. 'Posso pelo menos lavar os panos de limpeza', dizia ela. Apenas algum tempo depois, alguém comprou uma máquina nova e Lavatron foi novamente parar na sarjeta, esperando o próximo grupo de desavisados ávidos por aventura em uma manhã de sábado. Espero que tenha uma boa vida de uso. Espero que faça nosso sacrifício valer a pena. Espero que eu não tenha contraído tétano.

Vingança

Aconteceu que depois de usar o computador de um colega de república, deixei o email logado. Previsivelmente, foi enviado uma mensagem em meu nome endereçada aos colegas de república (cópia para todos), tirando sarro com minha já dessarrada cara e desmoralizando meu justo e merecido status de super campeão, mestre do mestres do Mario Kart 64.

Jurei vingança.

Após uma breve ponderação descobri quem foi o perpretador e, portanto, alvo de minha certeira retaliação. Vamos chamá-lo de Vítima, apesar do nome evocar um sentimento de inocência que não existe no sujeito (afinal de contas, ele que começou).

Descoberto o alvo, tracei um plano. Toda vez que Vítima digitava uma senha, eu observava atentamente os padrões, quais teclas eram pressionadas, quantas com a mão esquerda, quantas com a mão direita, quantos caracteres especiais. Quantas horas de investigação! Eis que após cruzar as informações obtidas pelo processo de observação por-cima-do-ombro com as provenientes de engenharia social e análises psicológica e social de Vítima, consegui obter uma de suas senhas.

A do Facebook.

Mas não postei imediatamente um comentário degradante sobre Vítima. Não li nenhuma de suas mensagens particulares para fazer graça dele junto ao grupo de amigos que temos em comum. Não entrei em nenhuma comunidade de objetivos homoeróticos para tirar um merecido sarro com a sua também dessarrada cara (aliás, existe comunidade no Facebook?). Não, oh, não, meu amigo. Minha vingança é clara, objetiva e paciente.

Durante um longo tempo, entrei todos os dias na conta de Vítima e imediatamente troquei a linguagem da interface de English(US) - inglês norte-americano - para English(Upside Down) - inglês invertido. Sim, meu caro, existe uma opção para deixar todo o texto do Facebook ao contrário. Vítima, sem saber o que acontecia, deve ter ficado confuso; porque diabos meu Facebook está de cabeça para baixo? Por que minha vingança assim decretou, Vítima. E minha vingança é suprema.

Só consigo imaginar as reações de Vítima em cada uma das 37 vezes que fiz a mesma coisa. Será que desconfiou que alguém tinha sua senha? "Não, não pode ser, já teria postado bobagem em meu nome ou lido alguma notificação a essa altura". Mas onde tantos outros fracassariam, minha sede de vingança triunfou.

E triunfou também minha habilidade de encenação. Não contente com o infortúnio a que submeti Vítima, ainda torturei-lhe um pouco mais. Hoje mesmo tivemos uma conversa que se deu da seguinte forma:

- Viu essa notícia ? - mostrando notícia sobre novos vírus e malwares que podem importunar os incautos que clicam em links inseguros na rede social em questão.
- Cara, acho que tenho algo do tipo, já faz tempo que meu Facebook fica de cabeça para baixo.

Para manter a farsa, tive de fazer cara de espanto. Lutei contra a gargalhada que surgiu do fundo de meus pulmões, do fundo mais profundo que os mares mais profundos do mundo dos meus pulmões; pressionei o machucado que tenho no joelho com força para que a dor me ajudasse a impedir que o júbilo irrompesse pela minha traquéia como o petróleo vazante de uma plataforma marítima da British Petrol. Lutei, sofri, e consegui.

Hoje, amanhã ou quiçá na próxima semana Vítima lerá estas linhas e trocará sua senha. Até lá, terá que continuar treinando sua já proficiente (conforme me disse) leitura invertida. Espero que leve para sempre consigo as palavras que saíram de minha boca enquanto engolia a maior gargalhada da história da humanidade:

- É... tem que ver isso aí.

Poesia II: Poesia genérica


Morar em república de estudantes é trabalhoso, consome muito tempo. Nessa agitação da vida moderna não-assalariada, quem é que tem tempo de escrever poesia? Ninguém, claro. Ninguém tem tempo de escrever poesia. Pensando nisso, os membros da República da Sagrada Castidade adotaramuma só obra em verso para todos os fins literários não-prosa.

SUBSTANTIVO MASCULINO
Eu sinto por você
um SUBSTANTIVO MASCULINO profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de SUBSTANTIVO MASCULINO do mundo
Eu simplesmente
FRASE DE EFEITO

Alguns exemplos:

Ódio
Eu sinto por você
um ódio profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de ódio do mundo
Eu simplesmente
te odeio

Algo mais apropriado para a semana de dia dos namorados?

Amor
Eu sinto por você
um amor profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de amor do mundo
Eu simplesmente
te amo de qualquer modo

Alguém postou mais um status naquela rede social com uma passagem altamente pessoal, desinteressante, trivial e/ou dedicada a alguém que não fede nem cheira?

Desdém
Eu sinto por você
um desdém profundo
Mais profundo
que o mais profundo
dos oceanos de desdém do mundo
Eu simplesmente
não me importo

Agora, sim, você pode ser um ignorante literário que leva uma vida de poeta do século XXI. Qualquer século, na verdade - um cara que nunca passou fome e reclama muito, e tem sempre algo que acha que é de fundamento a dizer.

A República

Cheguei ao Rio de Janeiro para ficar um bom tempo e vim morar em uma república de estudantes, a República da Sagrada Castidade ('ReSaCa'). Sem conhecer nenhum dos moradores antes de chegar, me espantei com o modo de vida mas não tive problemas em me adequar a ele. Não temos copos, mas temos um Nintendo 64 e Mario Kart, o que é o suficiente para uma vida feliz, aparentemente.

A questão central e mais difícil de ser compreendida sobre o lugar é: como é que isso funciona? Em alguns pontos, parece uma comuna socialista ou acampamento de indigentes, em outros, só um acampamento de indigentes. Explico: tomei a liberdade de fazer alguns cálculos e o número de pessoas dormindo no apartamento com regularidade é, de fato, maior que o de camas e colchões infláveis. Alguém deve estar dormindo escondido no banheiro.

Sobre o comunismo latente: o regime de partilha dos bens também é diferente de tudo que já tinha visto em vida; não se sabe quem é o responsável pela compra de itens como papel higiênico, shampoo, pasta de dente, sabonete e outros, apesar de serem compartilhados por todos (menos por mim, que escondo essas coisas para uso pessoal na gaveta de cuecas - sou um traidor dos costumes locais). Em parte pela falta de responsabilidade objetiva, alguns períodos de falta são comuns e todos tratam a questão como uma prova de resistência: quem não aguentar mais lavar o cabelo com sabonete que compre o shampoo. E alguém sempre compra.

Em tempo: foi aqui que conheci o termo 'shampoo homeopático'. É aquele em que o banhista enche o pote de shampoo já completamente vazio com água, chacoalha e aproveita o que surgir de espuma. Reza a lenda que o processo pode ser repetido por até cem vezes, com admirável eficácia no tratamento de pontas duplas, raízes olheosas e outros termos de propaganda do Seda ceramidas.

No mais, tudo vai muito bem, exceto pelos poucos reveses: o banheiro interditado para reformas pelo menos uma vez por mês, as lâmpadas que queimam a cada quinze dias, a infiltração na parede tão profunda e antiga que tem nome de batismo, o ventilador de teto que cai enquanto desligado sem razão aparente e o corpo humano semi-decomposto que encontramos dentro do armário da pia da cozinha.

Somos felizes competindo em campeonatos de Mario Kart na madrugada, discutindo política e Direito, dormindo espalhados, bebendo tudo em uma xícara com a alça quebrada, no escuro, sem banheiro confiável e com o risco de colapso da estrutura física em geral. E somos mesmo, é tão divertido morar com pessoas estranhas que estou pensando em domesticar algumas.

Otimismo

Procuro apartamento. Tarefa cansativa, preciso ligar para muita gente, anotar muitos dados, me preocupar em comparar os lugares que já visitei e definir preferências.


Descubro que a grande maioria dos apartamentos que atendem aos meus critérios de interesse não possuem área de serviço própria para lavar roupas ou mesmo espaço propício para estendê-las ao sol. Relatando os resultados da busca para a namorada, que deve vir morar comigo no dito apartamento, digo que provavelmente estaremos destinados a ser clientes de lavanderias por um bom tempo.

E ela, com um tipo raro de otimismo mesmo entre as pessoas que acham que o copo está meio cheio e enchendo aos poucos:
- Pelo menos vamos economizar no Omo!

De Baio a Lênin

Overdose de filhote de gato. Funciona assim: viajei para a casa dos primos e lá o Baio, gato filhote, caçou a fiação dos notebooks, baratas e os pés desatentos das pessoas. Insistia em subir na mesa quando jogávamos um jogo com centenas de pecinhas cuja delicada posição no tabuleiro é importante para a partida. Também gostou muito de guardar dentro do meu tênis uma das baratas que caçou, enquanto eu dormia só de meias no sofá. Parecia estar sob efeito de erva de gato o tempo todo. Bem, não todo, exatamente: quando montaram o narguilé e o pessoal baforou na cara dele algumas vinte vezes ele ficou mole e dormiu. É o mais parecido que se descobriu com um botão de desligar.

Aí viajo dez horas de ônibus pra encontrar outro gato, Lênin, acho que um pouco mais velho (um pouco maior, pelo menos) que o Baio. Mas tão hiperativo quanto. Atacou meus pés, subiu em cima de tudo que tentei ler e miou freneticamente até eu ir ver o que ele queria: estava comendo um objeto grudento não-identificado. Tirei dele e joguei fora, espero não ser nada valioso, e o miaredo começou (de novo) instantaneamente, com o gato parado do lado de um pote que deduzi ser o recipiente d'água. Enchi o tal pote e o gato prontamente enfiou o rosto na água, tirando de volta em seguida. Acho que tomou um susto, pois fez aquele barulho que os gatos fazem quando se intimam com algum outro bicho. Chacoalhou a cabeça e bebeu água normalmente. Entrou na minha mala e saiu 10 segundos depois, mas tenho a impressão de que vai estar faltando alguma coisa lá dentro quando eu for checar.

Vou sair agora e ver se consigo comprar um narguilé pra desligar esse também.

Trauma II

Se algum dia for responsável pela segurança de um local vou tentar o seguinte experimento: passar a noite no lugar. Com minha inseparável espada katana feita de palitos de picolé afiados por monges cegos da Linha Caturrita (porque Tibete já saiu de moda nos anos noventa) para minha proteção, é claro. Passarei uma noite no local para avaliar o ambiente, de forma a garantir que qualquer pessoa lá presa contra sua vontade por toda uma noite desfrute de condições mínimas de sobrevivência e conforto. Talvez esconda comida, água e bom material de leitura; mas dependendo do orçamento, posso deixar uma arma carregada com uma única bala.

Tomei essa resolução devido à experiência pela qual passei há algumas semanas. Semanas, sim, o relato está atrasado, tamanho o meu trauma, que só não é menor que minha vontade de viver ou meu e-penis por ter um número de ICQ de só cinco dígitos. E é essa vontade de viver, aliada ao já mencionado pênis virtual, que me leva a relatar aqui os dolorosos fatos ocorridos numa noite de verão.

Eis que saindo da universidade tarde da noite, trinta minutos antes de ser fechado o prédio, executo o ritual diário de último-a-sair: desligo os computadores, a cafeteira, fecho as janelas, alimento os refugiados de Botswana que foram mandados para o laboratório por engano no lugar de equipamento tecnológico por erro do Ministério Educação, desligo as luzes e chaveio a porta. Mas, pobre de mim, a porta que liga o prédio anexo, onde estou, ao principal, onde fica a saída, está trancada.

Ligo para a pessoa encarregada de chavear o prédio, aviso-lhe que estou trancado e que por favor venha abrir a porta, tenho que pegar o último ônibus e se eu perder esse trem, que sai agora as onze horas, só amanhã de manhã. A pessoa afirma que não tem a chave, vai entrar em contato com a Vigilância para que venham me destrancar, e tenta tranquilizar:

- Não se preocupe, não vou te chavear aqui dentro.

Passados alguns minutos, ligo novamente.

- Não atenderam lá na Vigilância, vou ficar tentando.

Tento eu mesmo ligar para a Vigilância. Nada. Subo as escadas e bato nas portas dos outros laboratórios, na esperança de que outro nerd sem vida tenha ficado até tão tarde, e que tenha a chave da dita porta. Bato na primeira porta: nada. Bato na segunda porta: nada. Bato na terceira porta: nada. Mas dispara o alarme.

O alarme do laboratório em um volume ensurdecedor toca num tom estridente e como um trem de passageiros na China: superlotado e comunista, ocupando todos os lugares de forma igualitária. Não há refúgio. Não há escapatória. Tento ligar novamente para a Vigilância, pensando que é melhor avisar que fui eu quem disparou o alarme, e não um ladrão ou o Fantasma do Zaguinho - o aluno que, nos anos setenta, morreu no começo do semestre e ainda assim foi aprovado em Cálculo e cujo espírito assombra os corredores da faculdade e pratica traquinagens dignas de vilão de filme pré-adolescente.

Veja bem, mesmo com o alarme (de volume tão alto que deve ter causado problemas nos equipamentos da Estação Espacial Internacional) e telefonando para os encarregados da segurança, ninguém apareceu. Suponho que um ladrão não seja tão cortês a ponto de telefonar para as forças vigilantes para reportar o furto em andamento, mas na minha universidade, caso ele o faça, mesmo assim não será pego.

Enquanto enfiava objetos avulsos nos ouvidos na tentativa de salvar o que restava de meu sistema auditivo, tive tempo de, pela porta de vidro, ver a pessoa que me prometeu não me deixar preso sair com os colegas de trabalho e, de fato, me deixar preso. Tive que esperar duas horas até o alarme morrer - e infelizmente morreram também neste período os refugiados, por exagero na ingestão de ração para gato. Erro meu, que sempre fui ruim com essas medições a olho nu, mas infelizmente no laboratório não há balança de precisão. Ironicamente, da última vez que encomendamos uma, recebemos os refugiados de Botswana.

Sem alternativa, retornei ao laboratório onde passei uma noite miserável de fome, ansiedade, terrores noturnos, suores frios e baixa conectividade na rede externa. E assim, para que ninguém tenha que passar pelo que passei, tomei a já mencionada decisão. Se eu tivesse comida, água e um bom material de leitura talvez não tivesse sofrido tanto; mas o que muito me fez falta foi a tal arma com a bala de misercórdia.

Stress II

Conversa sobre assunto qualquer, muito provavelmente sobre a qualidade da música ou o volume do rádio, durante uma viagem de carro. De repente, a mulher interrompe o assunto:

- Cuidado com o tucano.
E o homem, o motorista, confuso:
- O que?
- O tucano, ali em frente, cuidado!
- Que tucano? Onde? - abaixando a cabeça e cerrando os olhos, olhando para todos os lados.
- O tucano! Vai passar! Não, cuidado, o tucano!

E alguns minutos e muita discussão depois, o motorista descobre que a mulher quis dizer 'pardal', como são popularmente conhecidos os radares detectores de velocidade nas estradas do Rio Grande do Sul. Até hoje, quando se conta a história, ela diz:

- Parem de rir de mim, eu só errei o nome do pássaro.

E deixou de evitar uma multa.

Stress

- Alô?

- Alô, Vini! Tu viu meu celular?
- O que?
- Viu meu celular em algum lugar!? Tá por aí na tua casa!?
- O que? Não. Tá na rodoviária?
- Sim, acabei de chegar, o ônibus tá saindo, perdi meu celular e não acho, lá em casa não tá! Vê se eu não deixei aí!
- Não é do teu celular que tu tá me ligando?
- ...
- ...
- ...
- Ahn. É mesmo.

Aconteceu de verdade. Nome da interlocutora subtraído para manter o anonimato da Luíza.

Edmundo

Conheci um cara chamado Edmundo, Edmundo Samoa. Um conquistador.

É mais velho do que eu, mas dizem que carrega a fama de passa-a-vara há muito tempo. Ele mesmo diz que é assim desde outros tempos:
- Sou assim já de outros tempos, peguei mulher na época do ele-pê.

Suas técnicas de sedução são eficientes e especializadas por classe social, grupo econômico, faixa etária e risco de encarceramento. Nem toda conquista de Edmundo é gloriosa; sei, de fato, que algumas foram gloriosas - ou teriam sido - na década de 80. Algumas são até controversas: Edmundo às vezes brinca que "as pessoas diziam que ela tinha idade para ser minha veterinária", rindo. E não se importa. Diz que uma conquista é uma conquista:
- Uma conquista é uma conquista. Até avó amigo tá valendo!

Um dia desses um gurizote o chamou de tio. O senhor Samoa, já não sendo mais um rapazinho, há muito tempo adapta e adequa aos novos tempos as práticas de antigamente. Nos últimos tempos, no entanto, enfrentou dificuldades. Cabisbaixo, confiou aos mais íntimos (pelo menos a mim) que era o seu fim:
- É, compadre. Acho que é o meu fim.

E era mesmo. Foi atropelado dois dias depois dessa conversa e nunca mais se recuperou da morte instantânea.

Terror

Feche os olhos e imagine uma casa solitária em uma rua esquecida em que ninguém procura por nada há muito tempo. Se você ainda está lendo é porque ou nem chegou a fechar os olhos ou abriu antes de eu mandar; de qualquer forma, não posso mais confiar em você e não quero mais te contar história de terror nenhuma.

Ah, sim, estou indo até tua casa para te matar a marteladas.

Conforto

Odeio ser incomodado e adoro conforto. E meu conforto é maior quando incomodo os outros. Que outros? Todos os outros. Qualquer outros. E como todo delinqüente juvenil (juvenil, sim, a juventude é um estado de espírito!) tenho preferência por figuras de autoridade quando incomodo.

Depois de comprar um computador portável e muito pesado para ser portátil decidi que usá-lo enquanto deitado na cama, com ele sobre o colo, era algo desconfortável. Precisava de uma daquelas mesinhas, tipo de café na cama, com pernas retráteis ou dobráveis. Depois de uma breve pesquisa de mercado e de extorquir alguns informantes, tracei o plano para me apoderar de uma. Um plano mesquinho, vil e traiçoeiro, mas eu estava determinado. Assim, naquele dia, fui até a igreja para me confessar por antecedência.

Esperando na fila da confissão, convenci as senhoras que lá estavam que sim, abrir emails de estranhos era pecado. Reencaminhar para toda a lista de contatos, então, pecado mortal. E que com certeza adicionaram um novo círculo ao Inferno para quem comete esses pecados virtuais. Chegou a minha vez de ser atendido e adentrei o confessionário.

- Salve, filho - disse o padre.
- Padre, vim me confessar por um crime terrível.
- Que crime?

Não respondi. Já tinha saído correndo do confessionário, da igreja, da cidade. E levei comigo o banquinho de se ajoelhar do padre, que fiz cair com um sonoro tum no chão gelado da igreja (e era um inverno malvado) quando o arranquei de sobre os joelhos dele. O banquinho de se ajoelhar do padre, uma mesa perfeita para usar notebook na cama (e, suspeito, além de tudo, abençoado) já era meu. Poderia ter levado qualquer um dos que estavam espalhados pela igreja, mas me senti mais confortável me confessando em pleno ato. E, claro, prejudicando uma figura de autoridade religiosa. Na semana seguinte roubei a lista de votos comprados de um vereador da cidade vizinha, mas isso é outra história.

Susto

Já não lembro de quando comecei a passar as noites acordado. As madrugadas inteiras, geralmente lendo algo que não quero deixar pra ler depois, assistindo algo que não quero deixar pra assistir depois ou acabando um trabalho que fui deixando pra acabar depois. Lembro que quando era novo, tinha medo de que ladrões entrassem na casa e me encontrassem acordado - meu entendimento era de que ladrões entrariam em silêncio e sairiam sem levar meu videogame se eu estivesse dormindo.

De qualquer modo, acostumando-se a passar as noites em claro também se acostuma ao silêncio. Pessoas dormindo fazem menos barulho, via de regra - a exceção sendo aqueles que retumbam pelas vias nasais. Na madrugada menos carros passam na rua, menos pessoas fazem obras no prédio em construção, menos cultos evangélicos deturpam a escala dos decibéis, menos vizinhos brigam no andar de cima. E é mais fácil estudar.

Numa noite, só eu acordado passando férias na casa dos meus pais, um barulho terrível acordou a todos (e me fez perder a partida quase ganha de Age of Empires II). Terrível, mesmo, como vizinhos próximos brigando com um culto evangélico que constrói um prédio na rua utilizando partes de carros em movimento. E outras símiles mais apropriadas, talvez.

Naquela noite percebi que meus pais, cachorro, irmão e outros residentes ficaram alertas mais rápido do que eu - que estava acordado. Em menos de um minuto, já tinham lanternas nas mãos, botas nos pés, escondido os ossos (o cachorro) e saído exploração afora. E eu, que já estava desperto quando tudo começou, ainda tentando entender o que estava acontecendo.

No final das contas era só uma máquina de lavar. Ela foi deixada funcionando durante a noite e pulava com o peso da centrifugação, uma forma de protesto por horas extras injustas que as máquinas já adotaram, apesar da falta de avanços no campo da inteligência artificial que levem ao esperado apocalipse robô.

Com a constatação de que as pessoas que dormem ficam mais fácil e rapidamente preparadas para lidarem com o perigo, consegui desenvolver minha inovadora técnica de assaltar apenas residências em que só há pessoas acordadas de madrugada. E esse é o segredo do meu sucesso na carreira criminosa, que me permite financiar meus estudos para a construção de robôs assassinos; além de comprar livros, filmes e jogos para passar as horas em que não estou entrando na sua casa e levando o seu videogame.

Infantil

Tenho um amigo que se recusa a sair de casa. Não sei se é trauma ou mania, não sei a explicação. O cara tem de tudo na vida, é ricasso a ponto de morar em um casarão e ter um empregado que insiste em chamar de "mordomo" - bom, na verdade, ele é órfão, mas e daí? Deveria ter superado há tempos. Mas é um cara muito infantil. Parece que além de não sair de casa também tem medo de palhaço. Só rindo, mesmo.

Enfim, esse amigo um dia decidiu que ia parar de sair de casa. Obviamente, todo mundo que o conhece estranhou. Eu já me acostumei, nem percebo mais, mas a adaptação foi um pouco estranha. Perguntei "De onde você tirou essa idéia?" e ele respondeu "Eu acho que você sabe muito bem, Robin". Enfim, pelo menos ele parou de andar vestido de morcego e de bater nas pessoas por aí. Aquilo era delinquência, infantilidade pura.

Minha opinião

Sou um bom argumentador, creio. Convenço as pessoas de algumas coisas bem imbecis, às vezes, só para treinar. Como quando convencia as pessoas de que era apto nos esportes (na verdade, eu me convenci de que convencia as pessoas, ninguém nunca caiu nessa).

Também convencia meus professores a me darem boas notas pelo esforço, especialmente quando não havia me esforçado nem um pouco, como naquelas redações que nos obrigavam a escrever, "você é a favor ou contra?". O tema variava pouco de "punição dura por violência no trânsito", "tratamento forçado para viciados em drogas", "preconceito contra o tabagismo" e o eterno "aborto, sim ou não". Sempre fui a favor de não escrever esse tipo de redação. Não convence ninguém.

Hoje, por exemplo, tentei convencer alguns colegas, no ônibus, de que outra passageira estava - e vou dizer sem rodeios - mijada. Observei que as calças dela, nos fundilhos, estavam muito escuras, mais ou menos como fica o jeans molhado.

- Aquela guria tá mijada ou é impressão minha?

Piadas vão e vêm, e não é que até eu me convenço de que pode ser verdade. Ou não? Já estava em dúvida. Estávamos bem no fundo do ônibus e, como havia colegas sentados mais perto da moça (doravante referida como "Ela"), telefonei para um deles.

- Alô.

- Alô, fala cara.

- Alô, cara, tô no mesmo ônibus, a gente tá aqui no fundo, me diz uma coisa, tu consegue ver pra nós se essa guria aí de pé atrás de vocês tá mijada? As calças dela parecem molhadas, sei lá.

Ele não conseguiu ver nada, me disse depois, pois 'Ela' estava de frente para ele.

- Não pode ser, ela não ficaria de pé, sentaria para esconder.

- Talvez seja tática de choque, ficou de pé exatamente pra nos convencer de que não é mijo.

No final das contas 'Ela' passou por nós quando desceu do ônibus, mas dos que conseguiram dar uma boa olhada (eu não era um deles), um achou que eram detalhes da calça ("Mas quem é que compra uma calça que faz parecer que está mijada?!") e o outro estava convencido de que "não sei se era mijo, mas que estava molhada, estava!". Assim, chegamos ao final da história, onde fica clara a necessidade de intervenção espaço-temporal, no sentido contra-natural, do presente para o passado, para que seja revelada a todos a solução deste mistério.

E é por isso que, sim, sou a favor da viagem no tempo.



Pedindo pizza

Sexta, noite, é jogatina de tabuleiro lá em casa e estamos contrabandeando whisky feito em destilarias clandestinas na NY de 1921. Alguns capangas já deitaram na sarjeta e seu sangue escorreu pros bueiros com o whisky que os g-men apreenderam no caminhão roubado. A competição é ferrenha e quem lucra mais chora menos.

Antes de acabar essa partida e começar um treinamento para Dungeon Overlord na próxima, em um jogo completamente diferente, decidimos pedir uma pizza. Ser mafioso dá fome.

Como de costume, a decisão dos sabores promete ser uma discussão bem longa. Antes de começar a gastar saliva inutilmente, ainda no espírito gângster, proponho um acordo. Um acordo que eles não podem recusar.

- Ei, vamos fazer o seguinte: liga lá e diz que quer uma pizza gigante igual a última que foi pedida.

Sucesso instantâneo. O nosso bravo arauto telefônico trava contato e quando realmente pede "me manda uma pizza igual a última que tu tens anotada aí" o atendente acha graça. "Que que achou do meu pedido? Curtiu, né?!". Sim, ele tinha curtido.

Em meios às risadas do pessoal sobre o episódio inusitado tirei mais da metade das cartas do monte e coloquei na pilha que constituía minha mão. Não roubo em jogos de tabuleiro. Mas, afinal de contas, aquele era um jogo para gângsters.

Não importa

Não importa que tipo de dia era, se chuvoso ou ensolarado, se quente ou frio, se bucólico ou heterossexual. Era um dia qualquer. E uma bizarrice aconteceu.

Um jovem casal andava pela rua, não importa a origem ou destino. O que importa é que, como tantos namorados mundo afora, este estava incomodando a namorada, mas incomodando por prazer. Imagine a namorada andando, meio incomodada com o fato de estar se incomodando com as ações do namorado que, ela sabe, são bestas e têm o único objetivo de incomodá-la. Deu pra imaginar?

Não importa exatamente como ele fazia isso, mas coisas que geram o resultado semelhante são: cutucar a namorada, imitar as amigas dela em situação embaraçosa, falar palavrões de modo que outros transeuntes escutem para envergonhá-la ou discursar sobre como as mulheres querem mais é que os homens morram todos (depois de terem aberto o último vidro de pepino e admitido que elas são melhores motoristas). O que importa é que ela estava incomodada o suficiante para verbalizar.

E ela fez isso batendo no braço dele (aquele soco de namorada que não quer admitir que está incomodada) e dizendo: "Seu torto!". Explico: torto é uma gíria local para um bestalhão, boboca, trapalhão ou imbecil. Mas, como veremos, também pode ser considerado um termo bem ofensivo.

O que aconteceu nesse caso específico foi que o namorado imediatamente parou de incomodá-la, ficou em silêncio, profundo e envergonhado. Todos que já passaram ou viram situação semelhante sabem que um namorado incomodativo não se aquieta com um soco feminino no braço, ele simples reclama "Ei, isso doeu!" e continua a fazer o que estava fazendo (incomodá-la).

Então, qual foi o motivo do silêncio pós-soco tão raro? Após alguns passos, ele explicou calmamente:
- Ei, olha só. Quando tu me bateu e gritou "seu torto", bem na hora passou por nós aquele senhor, deficiente físico.

Ela, conhecedora do humor questionável do namorado, não acreditou. Disse "Mentira.", e várias maneiras de xingar o namorado passaram por sua cabeça, mas não importa. Ele se adiantou e disse: "Olha lá atrás , então".

E ela olhou, e viu. E acreditou. Lá estava um senhor, deficiente físico, caminhando com suas dificuldades na direção contrária. Mas olhava pra eles, meio envergonhado, meio raivoso.

Compreensivelmente, ela ficou desolada. Que fora! Mas não importa o quanto ela tenha se sentido mal, o que se seguiu foi pior. Exclamou, em alto e bom tom, aquela interjeição comum: "Ah, não!" (implicitamente significando 'não acredito que fiz essa cagada'). Não importa o quanto tenha se sentido mal porque ela fez essa cagada, e fez pior.

No exato momento em que gritou "Ah, não", ainda meio virada pra trás, adivinha quem passava por eles? Um anão. Você pode não acreditar, mas não importa. Foi assim que aconteceu e é assim que vai entrar para a História.